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segunda-feira, 10 de julho de 2017

BORIS PASTERNAK

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BORIS PASTERNAK

Boris Leonidovitch Pasternak foi um poeta e romancista russo.
Nascimento: 10 de Fevereiro de 1890, Moscovo, Rússia
Falecimento: 30 de maio de 1960, Peredelkino, Rússia
Cônjuge: Yevgenia Vladimirovna Lourie (de 1922 a 1931)
Filmes: Doutor Jivago, Rei Lear
Filhos: Evgenij Pasternak, Leonid Pasternak
Borís Leonídovitch Pasternak (1890-1960) foi um poeta, escritor e tradutor russo, considerado um dos maiores poetas do século XX. Nascido a 10 de Fevereiro de 1890, tornou-se aos 68 anos, em 1958, o segundo escritor da Rússia (após Ivan Búnin) a ser agraciado com o Prémio Nobel da Literatura. A sua obra consiste num grande número de ensaios académicos, cujo volume ultrapassa o número de livros do escritor. A vida de Pasternak foi cheia de eventos, encontros, reviravoltas inesperadas do destino; as suas obras tornaram-se pontos de referência não só na biografia do autor e na literatura russa, mas também na história da Rússia do século XX.
Pasternak nasceu em Moscovo, na família do professor de artes plásticas Leoníd Pasternak. Terminou a escola e, em seguida, em 1913, estudou na Faculdade de Histórico-Filológicas, na área de Filosofia, da Universidade de Moscovo. No Verão de 1912, estudou Filosofia na Universidade de Marburgo (Alemanha) e viajou para a Itália (Florença, Veneza). Durante a juventude, compôs música, pintou bons quadros, tornou-se num apaixonado por história.
O mais importante trabalho da sua vida foi o romance Doutor Jivago (Доктор Живаго), pelo qual Pasternak recebeu o Prémio Nobel em 1958.

No romance Doutor Jivago, a última parte é dedicada à poesia do protagonista. O primeiro poema, cuja autoria é atribuída ao protagonista, chama-seA Noite de Inverno (Зимняя ночь). Posteriormente, foi muitas vezes publicado como uma obra literária independente, com o nome de Vela (Свеча), e foi até musicado.

A Noite de Inverno
Мело, мело по всей земле
Во все пределы.
Свеча горела на столе,
Свеча горела.
Nevou, nevou por toda a Terra,
Por todos os recantos.
Uma vela ardia sobre a mesa,
Uma vela ardia.
Как летом роем мошкара
Летит на пламя,
Слетались хлопья со двора
К оконной раме.
Como no Verão o mosquedo
Sobrevoa a chama,
Voavam flocos lá de fora
Para o caixilho da janela.
Метель лепила на стекле
Кружки и стрелы.
Свеча горела на столе,
Свеча горела.
O nevão moldava no vidro
Arcos e flechas.
Uma vela ardia sobre a mesa,
Uma vela ardia.
На озарённый потолок
Ложились тени,
Скрещенья рук, скрещенья ног,
Судьбы скрещенья.
No tecto alumiado
Deitavam-se as sombras
Da encruzilhada de braços, de pernas,
De destino encruzilhado.
И падали два башмачка
Со стуком на пол,
И воск слезами с ночника
На платье капал.
E caíram dois sapatinhos
Ao chão, com um baque,
E, da lamparina, a cera em lágrimas
Gotejava no vestido.
И всё терялось в снежной мгле
Седой и белой.
Свеча горела на столе,
Свеча горела.
E tudo se perdeu na bruma de neve
Cinzenta e branca.
Uma vela ardia sobre a mesa,
Uma vela ardia.
На свечку дуло из угла,
И жар соблазна
Вздымал, как ангел, два крыла
Крестообразно.
Algo soprou do canto para a vela,
E o fervor da tentação
Ergueu, como um anjo, duas asas
Em forma de cruz.

Мело весь месяц в феврале,
И то и дело
Свеча горела на столе,
Свеча горела.
Nevou todo o mês, em Fevereiro,
E, incessantemente,
Uma vela ardia sobre a mesa,
Uma vela ardia.
FONTES;

Boris Pasternak - Universidade de Coimbra

https://www.uc.pt/fluc/depllc/CER/cerartigos/cerartigo20

Tradução de Inês Gonçalves

Boris Pasternak - Wikipedia

https://en.wikipedia.org/wiki/Boris_Pasternak

sábado, 3 de setembro de 2016

Morre Sozinho em Viagem Entre Hospitais





Um idoso morreu, anteontem de manhã, ao ser transferido da Urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) para a do Hospital dos Covões, numa ambulância onde seguia o motorista e um assistente operacional.
O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) alega que, pela avaliação feita ao doente antes daquela viagem , não se justificava o seu acompanhamento por um médico ou enfermeiro. Para a Ordem dos Médicos, o caso é, em si, “um exemplo da “barbárie que foi fecharem a Urgência dos Covões” à noite e ao fim de semana.
José, de 90 anos, residia em Montemor-o-Velho, numa área de influência dos Covões. Segunda-feira à noite, estava com delírios e, sofrendo de insuficiência respiratória, a família decidiu levá-lo à Urgência. Mas como a fusão hospitalar de 2012 reduziu o Serviço de Urgência dos Covões a cinco dias por semana e só no horário das 9 às 20 horas, o idoso foi levado para os HUC. Entrou aqui às 00.11 horas de terça-feira.
Pela manhã, foi decidido transferir José. Como sucede todos os dias a muitos doentes. (Questionado, o CHUC não esclareceu quantos). O JN também perguntou ao presidente da administração, Martins Nunes, pelos critérios da transferência, mas a resposta veio do Serviço de Urgência do CHUC (que integra a Urgência dos HUC e a dos Covões), dirigido por Isabel Fonseca, e não foi esclarecedora. Sustentou que entre HUC e Covões “ocorrem as transferências necessárias, de acordo com regulamento interno” (o JN pediu este regulamento, mas não teve resposta). A razão daquelas transferências será descongestionar a Urgência dos HUC.
Antes da viagem de José para os Covões – perto de uma dezena de quilómetros, que podem demorar uns 15 a 20 minutos, consoante o trânsito – , um médico fez a avaliação clínica do doente e concluiu que o transporte podia ser feito “em ambulância normal com equipa constituída por um tripulante, sem necessidade de acompanhamento médico ou de enfermagem”. Além do motorista, seguiu um assistente operacional, que só terão dado conta da morte do doente ao chegarem aos Covões pelas 9.48 horas.
O presidente do Concelho Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, não se sente com informação suficiente para comentar o transporte sem médico ou enfermeiro, mas critica a situação de fundo: “É má solução os doentes andarem sempre a viajar de um lado para o outro”, diz, afirmando que também há transferência dos Covões para os HUC, por aquele polo de Urgências ter perdido, em 2012, especialidades.
De resto, observa que a frota de ambulâncias que faz aquele transporte “precisa de uma renovação”.
Fonte: Jornal de Notícias (edição impressa)
pubicado em facebook partilhado por
carminda neves em setembro de 2016

sábado, 18 de julho de 2015

Exílio # Emigração?





A palavra exílio adquiriu diferentes conotações ao longo do tempo, tendo sido muito utilizada tanto na história quanto na literatura. Originalmente significa banimento, e vem do latim exilium (desterro, degredo), ou seja, é a condição de estar longe da própria casa, cidade, nação, etc. Pode também ser considerado a expatriação de uma pessoa, seja ela voluntária ou não.
Sentidos que a palavra adquiriu ao longo do tempo:

1. Exílio Romano

Na Roma antiga, a pena do exílio era considerada pior do que a pena de morte. Para eles, estar exilado era como ser considerado um animal, pois neste caso eles não podiam usar água ou fogo para preparar os alimentos, nem entrar em uma casa se esta não fosse feita por suas próprias mãos.

2. Auto-exílio ou Exílio Voluntário

Este provavelmente é o caso em que o exílio é considerado um refúgio. Em casos específicos de perseguição, ameaças, etc., alguns indivíduos procuram exílio por vontade própria, provavelmente em outros países, antes que algum fato legal ou jurídico impeça a sua saída do país de origem. Ex: O Exilio de Humberto Delgado no Brasil em 1959 constitui um momento único na história política de Portugal Contemporâneo. É a queda dos mitos, criados ao longo dos anos, por Salazar e seus apaniguados, quer a nível interno, quer externo. As eleições presidenciais de 1958 constituem para Humberto Delgado um drama pessoal e político, com múltiplos reflexos. O seu exílio político vai centrar-se numa dimensão humana com novas vivências políticas das vítimas da repressão do Estado Novo.

3. Exílio ou Cativeiro Babilónico

O Cativeiro Babilônico, também chamado de Exílio ou Cativeiro na Babilônia, foi a deportação em massa e exílio do povo judeu de Judá para a Babilônia. A primeira deportação ocorreu em 598 a.C., quando Jerusalém foi sitiada, o Rei de Judá se rendeu, e o Templo foi saqueado. Nesta ocasião, o Rei juntamente com os militares e grande parte da nobreza foram levados para o Exílio na Babilônia. A segunda deportação aconteceu onze anos depois, por ocasião de uma revolta no Reino de Judá e a destruição de Jerusalém e do Templo. O término do Cativeiro na Babilônia deu-se quando Ciro II assumiu o reinado, em 538 a.C., autorizando os judeus exilados a regressarem à terra de Judá, e até mesmo a Jerusalém, para reconstruir o Templo.
 
Rainha Ester

Ester, nasceu no cativeiro, junto com o povo judeu. Sendo assim cresceu aprendendo a história da redenção e as promessas de restauração além da vergonhosa verdade acerca de porque eles viviam ali. (O Reino da Babilónia tinha levado à destruição do reino de Judá).
    Uma das coisas mais interessantes sobre a vida de Ester é como a providência divina utiliza uma simples rapariga na libertação do todo seu povo. Nem ela, nem sua família nunca imaginaram que ela seria tão importante nos planos de Deus.
 O primeiro-ministro Hamã odiava de todo o povo judeu; incitou o povo a participar no assassinato dos judeus e na pilhagem de seus bens. Mordecai, (Judeu, escrivão do rei Xerxes e tio de Ester (foi ele que a criou, ela ficou órfã de tenra idade)  percebeu os planos perversos de Hamã e decidiu falar com sua sobrinha, (Ester) a única judia que estava em posição de chegar aos ouvidos do Rei, (era a rainha). Ele pediu que Ester fizesse algo perigoso: aparecer diante do rei sem ser convidada e interceder em favor dos judeus. Seu povo, que tinha recebido tudo das mãos de seu Deus, que fora escravo por séculos no Egito até que Deus os libertara e que fora tão teimoso em não ouvir a voz dos profetas e agora sobraria para ela remediar a situação? Deus moveu o coração do rei e por amor a ela seu povo é poupado.

4. Exílio Político

O exílio (do latim exilium banimento, degredo) é o estado de estar longe da própria casa (seja cidade ou nação) e pode ser definido como a expatriação, voluntária ou forçada de um indivíduo. Também pode-se utilizar as palavras, banimento, desterro ou degredo. Alguns autores utilizam o termo exilado no sentido de refugiado.
Além de pessoas em exílio há governos em exílio, como o do Tibete ou nações em exílio, como foi o caso da Arménia de 1078 a 1375, que depois da invasão de seu território por tribos seljúcidas, exilou-se na Cilícia, formando um novo reino.
  Em muito países oprimidos, os opositores ao regime são presos em prisões ou locais de tortura, onde permanecem em péssimas condições e são torturados, só pelo facto de não concordarem com o regime.
  O exílio em Portugal antes do 25 de abril de 1974. Muitos portugueses foram obrigados ao exílio para não serem presos ou por recusarem ir combater na injusta guerra colonial. Nos países de exílio, continuaram a sua luta contra a ditadura.

Apesar de por vezes as definições serem permeáveis, a emigração e a imigração, dizem os Historiadores, não devem ser confundidas com "exílio" palavra igual a fenómenos de migração involuntária, como expatriações forçadas e limpezas étnicas, que me parece que é o que acontece com a emigração (ninguém sai do seu país por festa)

A emigração é o ato e o fenómeno espontâneo de deixar o seu local de residência para se estabelecer numa outra região ou nação. Trata-se do mesmo fenómeno da imigração mas visto da perspectiva do lugar de origem. A emigração é a saída de nosso País. Convenciona-se chamar os movimentos humanos anteriores ao advento dos Estados nacionais e, consequentemente, do surgimento das fronteiras de migração. O termo emigração também é usualmente usado para designar os fluxos de população dentro de um mesmo País.

As razões que levam uma pessoa ou grupo a emigrar são muitas, como as condições políticas desfavoráveis, a precária situação económica, perseguições religiosas ou guerras. Há outras razões de cunho individual, como a mudança para o País do cônjuge estrangeiro após o casamento ou ir para um país de clima mais ameno após a aposentadoria.

As emigrações tiveram um profundo impacto no mundo dos séculos XIX e XX, quando milhões de famílias deixaram a Europa e o Oriente Médio para procurar uma nova vida em países como os Estados Unidos da América, o Canadá, o Brasil, a Argentina ou a Austrália.

Desde o século XVI que em Portugal se escrevem magnificas obras literárias onde a emigração constituiu um dos seus temas centrais. Lendo a "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto, "A Selva" ou "Emigrantes" de Ferreira de Castro, para já não falar de "Gente Feliz com Lágrimas" de João de Melo, podemos verificar que as grandes questões que hoje são debatidas sobre a imigração actual são aí dissecadas: solidão, escravatura, desagregação familiar, exclusão social, xenofobia, racismo, aculturação, etc
CANÇÃO DO EXÍLIO

“A canção do exílio foi um choro.
E o naufrágio dos planos me deixou caído no chão.
Mas pude uma porta encontrar.
Alguém pra me consolar.
Jesus foi tudo em minha vida,
Tornou-se o tema das minhas canções.
Eu preciso de Deus, eu preciso de Deus.
Eu preciso de Deus a todo instante.
Sinto a necessidade de louvar-te.
Pois meus olhos se alegram em teus feitos meu Senhor.
No passarinho a cantar.
Nas aves sempre a voar.
Eu vejo tua ciência, que mostra a grandeza que vem das tuas mãos.”

(Marcos António)
Trova do vento que passa. Intérprete: Adriano Correia de Oliveira
                                                Música: Manuel Alegre - António Portugal
Fotografias: tiradas da internet Poema: Manuel Alegre
  PowerPoint: Carminda neves

Coimbra, julho de 2015
Carminda Neves



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

MANIFESTO ANTI DANTAS - ALMADA NEGREIROS

   
        Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!
O Dantas é um cigano!
O Dantas é meio cigano!
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!
O Dantas é um habilidoso!
O Dantas veste-se mal!
O Dantas usa ceroulas de malha!
O Dantas especula e inocula os concubinos!
O Dantas é Dantas!
O Dantas é Júlio!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!
E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!
O Dantas é um ciganão!
Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!
O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro!
O Dantas é um soneto dele-próprio!
O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.
O Dantas nu é horroroso!
O Dantas cheira mal da boca!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas é o escárnio da consciência!
Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!
O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!
O Dantas é a meta da decadência mental!
E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!
E ainda há quem lhe estenda a mão!
E quem lhe lave a roupa!
E quem tenha dó do Dantas!
E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!
Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar:
A princípio, por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram pra português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio ato é que descobri que era de madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol!
A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.
A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.
A Mariana que é histérica começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau-de-cabeleira soror Inês.
Vêm descendo pla dita estreitíssima escada, várias Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.
E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda... Quem está aí?... E de candeias apagadas?
- Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de terror... E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d'alma o ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra plo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.
Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há pouco vira um de cavalos a saltar pla janela. A abadessa diz que efetivamente já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo pra descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres. Depois de sérios embaraços do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma um pedaço d'interesse porque o bispo ora parece um polícia de investigação disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia d'investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o público já está farto de saber - que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas.
Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente plo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.
A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma merdariana-aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.
Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do "Século" a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta "Júlio Dantas" e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.
E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.
E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.
Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa? Não Mil vezes não!
Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.
E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avózinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecelidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E (o) raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Arte(s)! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!
E as convicções urgentes do homem Cristo Pai e as convicções catitas do homem Cristo Filho!...
E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
Morra o Dantas, morra! Pim!

José de Almada Negreiros
Poeta d'Orpheu        
Futurista E Tudo
1915

     
   Acerca se
 Almada Negreiros

José Sobral de Almada Negreiros GOSE (Trindade, São Tomé e Príncipe, 7 de Abril de 1893 — Lisboa, 15 de Junho de 1970) foi um artista multidisciplinar português que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas (desenho, pintura, etc.) e à escrita (romance, poesia, ensaio, dramaturgia), ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses

Almada Negreiros é uma figura ímpar no panorama artístico português do século XX. Essencialmente autodidata (não frequentou qualquer escola de ensino artístico), a sua precocidade levou-o a dedicar-se desde muito jovem ao desenho de humor. Mas a notoriedade que adquiriu no início de carreira prende-se acima de tudo com a escrita, interventiva ou literária. Almada teve um papel particularmente ativo na primeira vanguarda modernista, com importante contribuição para a dinâmica do grupo ligado à Revista Orpheu, sendo a sua ação determinante para que essa publicação não se restringisse à área das letras. Aguerrido, polémico, assumiu um papel central na dinâmica do futurismo em Portugal: "Se à introversão de Fernando Pessoa se deve o heroísmo da realização solitária da grande obra que hoje se reconhece, ao ativismo de Almada deve-se a vibração espetacular do «futurismo» português e doutras oportunas intervenções públicas, em que era preciso dar a cara
Em Portugal as águas agitam-se. A política está em ebulição. Os partidos monárquicos não se entendem. Todos ambicionam o poder. Enquanto isto, os republicanos unem-se, movimentam-se. O 5 de Outubro de 1910, a Revolução. É a implantação da República. Muitos são perseguidos. Novas ideiam adotadas. Combate-se o passado. O anticlericalismo grassa. Não tinha sido a Igreja o grande protetor do poder? É preciso remodelar. Os Jesuítas são uma elite. A sua influência deve acabar. O Colégio de Campolide é extinto.
Almada vai para o Liceu de Coimbra. Não por muito tempo. Em 1911 ingressa na Escola Internacional em Lisboa. O sistema de ensino é diferente. Facilitam-lhe um espaço que serve de oficina. Aprende por conta própria.
"Eu sou o resultado consciente da minha própria experiência"
O movimento artístico português necessita de inovação. Os artistas plásticos continuam a satisfazer os gostos de uma sociedade burguesa. O naturalismo predomina na arte. Os impressionistas não têm repercussões em Portugal. É um país limitado. Almada sabe-o. Há que dizê-lo.
Em 1913 publica o primeiro desenho n’A Sátira - é necessário agitar a mentalidade artística portuguesa. No mesmo ano faz a primeira exposição individual. São cerca de 90 desenhos.
Fernando Pessoa escreve uma crítica à exposição. Quando Almada o aborda, responde-lhe que não percebe nada de arte... Nasce a amizade.
Almada Negreiros participa no lançamento da revista ORPHEU.
 Júlio Dantas deprecia o trabalho. Reações à inovação. Critica a publicidade feita à revista. Afirma não haver justificação para o sucesso. Diz que os autores são pessoas sem juízo.

A 21 de Outubro do mesmo ano estreia-se a peça Soror Mariana. O autor é Júlio Dantas. Almada vai agora reagir. Publica o Manifesto Anti Dantas e por extenso. O manifesto não é apenas contra Dantas. É uma reação contra uma geração tradicionalista, uma sociedade burguesa, um país limitado.
No fim assina: POETA D' ORPHEU, FUTURISTA E TUDO.
 Almada é também um caso particular no modo como se posicionou em termos de carreira artística. Esteve em Paris, como quase todos os candidatos a artista então faziam, mas fê-lo desfasado dos companheiros de geração e por um período curto, sem verdadeiramente se entrosar com o meio artístico parisiense. E se Paris foi para ele pouco mais do que um ponto de passagem, a sua segunda permanência no estrangeiro revelou-se ainda mais atípica. Residiu em Madrid durante vários anos e o seu regresso ficou associado à decisão de se centrar definitiva e exclusivamente em Portugal.
A I Guerra Mundial assola a Europa. Muitos artistas portugueses regressam a Portugal: Amadeu Sousa Cardoso, Guilherme Santa Rita, Eduardo Viana, são alguns deles. Outros são refugiados: Sónia e Robert Delaunay.
O Manifesto causa impacto nos meios artísticos. Afinal há alguém que ousa contestar a cultura instituída. Alguém que ousa criticar a sociedade, o País. Não se pode ficar ausente. É necessário intervir. Unir esforços para que haja uma Acão artística. Um movimento que cresça...
É o modernismo da arte portuguesa. O movimento não pára: nas letras e nas artes. Portugal está no século XX. A transformação é uma necessidade. É preciso agitar, por vezes provocando. Almada fá-lo no Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do séc. XX
É preciso criar a Pátria Portuguesa do séc. XX
O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragens Portugueses, só vos faltam as qualidades.
Almada Negreiros pinta murais em Madrid.
Almada Negreiros faz os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.
Almada Negreiros pinta os painéis das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha
Em 59 o SNI atribui-lhe o "Prémio Nacional das Artes". Galardão que não serve para calar o mestre. No mesmo ano Almada assina um protesto público pela nomeação de Eduardo Malta para Diretor do Museu de Arte Contemporânea. Nunca o Mestre será moldado. Continua a dizer o que pensa, mesmo que o poder não goste. É ainda o menino com olhos de gigante.

O Estado sabe que não convém hostilizar o Mestre. Tanto mais que Almada é um artista reconhecido, homenageado. Melhor será partilhar a opinião geral. Decidem nomeá-lo procurador à Câmara Corporativa na subsecção de Belas- Artes. No ano seguinte propõem-lhe, e aceita, o Grande Oficialato da Ordem de Santiago Espada.
Almada tem 75 anos. A vitalidade ainda perdura. Executa o painel Começar para o átrio da Fundação Calouste Gulbenkian e os frescos para a Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.
Ao longo da vida empenhou-se numa enorme diversidade de áreas e meios de expressão – desenho e pintura, ensaio, romance, poesia, dramaturgia… até o bailado –, que Fernando de Azevedo classifica de "fulgurante dispersão"5 . Sem se fixar num domínio único e preciso, o que emerge é sobretudo a imagem do artista total, inclassificável, onde o todo supera a soma das partes. Também neste aspeto Almada se diferencia dos seus pares mais notáveis, Amadeo de Souza-Cardoso e Fernando Pessoa, cuja concentração num território único, exclusivo, foi condição necessária à realização das obras máximas que nos deixaram como legado.
Personalidade incontornável, a inserção de Almada Negreiros na vida e na cultura nacionais é extremamente complexa; segundo José Augusto França, dele fica sobretudo a imagem de "português sem mestre" e, também, tragicamente, "sem discípulos
Em 1970 o Retrato de Fernando Pessoa é leiloado. Almada assiste ao leilão. O preço atingido, 1300 contos, causa admiração. Nunca um pintor português conseguira tal proeza.
No mesmo ano assina o acordo para a publicação do primeiro volume das suas Obras Completas.
Em Junho dá entrada no Hospital de S. Luís dos Franceses.
No dia 15 morre. No mesmo quarto onde morrera Fernando Pessoa.
Em tempos Almada respondera a alguém:
AS PESSOAS QUE EU MAIS ADMIRO SÃO AQUELAS QUE NUNCA ACABAM

FONTE:youtube
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            Cristina Vaz
  Coimbra,Fevereiro de 2015
   Carminda Neves