domingo, 24 de maio de 2015

CESÁRIO VERDE

Cristalizações

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.
Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como em chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.
Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.
Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra — que união sonora! —
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.
Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.
A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.
E nesse rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás.
Eu julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! —
CESÁRIO VERDE
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!
Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!
E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!
Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.
Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.
Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.
Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!
De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à russa.
Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.
E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!
CALCETEIROS DE LISBOA
Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a atrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!
Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinhas de tacões agudos.
Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!
Lisboa, Inverno de 1878

José Joaquim Cesário Verde (Lisboa, Madalena, 25 de Fevereiro de 1855 — Lisboa, Lumiar, 19 de Julho de 1886) foi um poeta português, sendo considerado um dos precursores da poesia que seria feita em Portugal no século XX.

COIMBRA, MAIO DE 2015
CARMINDA NEVES

VER MAIS EM:
pt.slideshare.net/sebentadigital/cesrio-verdesistematizao
ensina.rtp.pt/artigo/o-livro-de-cesario-verde/
pt.wikipedia.org/wiki/Cesário_Verde
www.prof2000.pt/users/jsafonso/port/verde.htm

quinta-feira, 7 de maio de 2015

LUÍS DE CAMÕES

LUÍS DE CAMÕES
1524 ou 1525: Datas prováveis do nascimento de Luís Vaz de Camões, talvez em Lisboa. - 1548: Desterro no Ribatejo; alista-se no Ultramar. - 1549: Embarca para Ceuta; perde o olho direito numa escaramuça contra os Mouros. - 1551: Regressa a Lisboa. - 1552: Numa briga, fere um funcionário da Cavalariça Real e é preso. - 1553: É libertado; embarca para o Oriente. - 1554: Parte de Goa em perseguição a navios mercantes mouros, sob o comando de Fernando de Meneses. - 1556: É nomeado provedor-mor em Macau; naufraga nas Costas do Cambodja. - 1562: É preso por dívidas não pagas; é libertado pelo vice-rei Conde de Redondo e distinguido seu protegido. - 1567: Segue para Moçambique. - 1570: Regressa a Lisboa na nau Santa Clara. - 1572: Sai a primeira edição d’Os Lusíadas. - 1579 ou 1580: Morre de peste, em Lisboa. PARA VER MAIS VÁ A

sábado, 2 de maio de 2015

OLOF PALME

UM MARCO NA DEMOCRACIA EUROPEIA
Sven Olof Joachim Palme (Estocolmo, 30 de janeiro de 1927 — Estocolmo, 28 de fevereiro de 1986) foi um político sueco. Membro do Partido Social-Democrata (Sveriges socialdemokratiska arbetareparti) foi primeiro-ministro da Suécia entre 1969 e 1976 e de novo entre 1982 e 1986, ano em que foi assassinado à saída de um cinema em Estocolmo.
ASSASSINADO
.
.O assassinato do primeiro-ministro social-democrata Olof Palme causou uma forte comoção no povo sueco, que há quase 200 anos não vivia esse tipo de violência política. Ele foi morto a tiros quando saía do cinema com a esposa, uma situação que revela uma peculiaridade do país que governava. Nenhum outro chefe de governo europeu ousaria expor-se ao público de forma tão desprotegida. Para ver mais vá a:

Arlindo de Carvalho - Castelo Branco (Canções à Beira Terra)

ARLINDO CARVALHO
Arlindo Duarte Carvalho (Soalheira, Beira Baixa, 27 de Abril de 1930) é autor, compositor e cantor de canções tradicionais portuguesas conhecidas de todos nós e em todo o mundo. Foi professor na sua terra natal, no Porto, em Lisboa e ainda na Alemanha e França, onde esteve exilado e foi Leitor de Português a partir de 1965 no Liceu Henrique IV de Poitiers.
Aprendeu as primeiras notas de música com um barbeiro (José Bernardo) de Castelo branco. Tocado e cantado por grandes músicos e grandes vozes ex: Eugénia Lima, Amália Rodrigues, Luís Piçarra, Gina Maria, Lenita gentil, Mafalda Arnauth etc. exilado (já referido atrás para vários países da Europa. Estudou na Academia de Amadores de Música, de Lisboa. Estreou-se como cantor em Paris em 1966. Participou em programas de rádio e televisão em Paris, Hamburgo, Berlim, Munique. Foi convidado por Olof Palme na campanha eleitoral do Partido Social Democrata da Suécia de 1969 e 1979. Olof Palme foi primeiro-ministro da Suécia entre 1969 e 1976 e de novo entre 1982 e 1986, ano em que foi assassinado à saída de um cinema em Estocolmo
Tive conhecimento da existência de Arlindo Carvalho no programa INESQUECÍVEL de Júlio Isidro da RTP I. conhecia, assim como todos os portugueses, as suas maravilhosas canções. Não conhecia o autor. É conhecido internacionalmente
Musicas: Chapéu preto, Fadinho serrano, Castelo branco, Balada do Emigrante, Trás os Montes Minha Terra, Comboio da Beira Baixa etc. Canta actualmente numa casa de fados em Lisboa.

ARLINDO CARVALHO COM JÚLIO ISIDRO

Posted by Carminho Antunes on Sexta-feira, 1 de Maio de 2015

quinta-feira, 30 de abril de 2015

FERNANDO PESSOA

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa13 de Junho de 1888 — Lisboa30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poetafilósofo e escritor português.
Fernando Pessoa é o mais universal poeta português. Por ter sido educado na África do Sul, numa escola católica irlandesa, chegou a ter maior familiaridade com o idioma inglês do que com o português ao escrever os seus primeiros poemas nesse idioma. O crítico literário Harold Bloom considerou Pessoa como "Whitman renascido", e o incluiu no seu cânone entre os 26 melhores escritores da civilização ocidental, não apenas da literatura portuguesa mas também da inglesa. PARA VER MAIS VÁ A

Fernando Pessoa – Wikipédia, a enciclopédia livre



 COIMBRA,ABRIL DE 1015
CARMINDA NEVES

WILLIAM FAULKNER

.
William Cuthbert Faulkner (New Albany, 25 de setembro de 1897 — Byhalia, 6 de julho de 1962) é considerado um dos maiores escritores dos estados unidos do século XX.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1949. Posteriormente, ganhou o National Book Awards em 1951, por Collected Stories e em 1955, pelo romance Uma Fábula. Foi vencedor de dois prémios Pulitzer, o primeiro em 1955 por Uma Fábula e o segundo em 1962 por Os Desgarrados. ver mais em
pt.wikipedia.org/wiki/William_Faulkner


ABRIL DE 2015
CARMINDA NEVES

terça-feira, 28 de abril de 2015

STEPHEN HAWKING

STEPHEN HAWKING MOSTRA AO MUNDO COMO UMA DOENÇA FISICAMENTE PARALISANTE, NÃO LHE RETIROU, A VONTADE DE VIVER E CONTINUAR, COM OS SEUS EXCELENTES TRABALHOS DE INVESTIGAÇÃO CIENTIFICA. CONTINUE, E OBRIGADA PELO EXEMPLO, QUE O MUNDO SE VEJA NA SUA PESSOA.
VEJAMOS UM POUCO DE STEPHEN HAWKING:
STEPHEN HAWKING
Stephen William Hawking (Oxford, 8 de janeiro de 1942) é um físico teórico e cosmólogo britânico e um dos mais consagrados cientistas da atualidade. Doutor em cosmologia, foi professor lucasiano (é o nome que se dá à cátedra de matemática da Universidade de Cambridge) de matemática na Universidade de Cambridge , onde hoje se encontra como professor lucasiano emérito, um posto que foi ocupado por Isaac Newton, Paul Dirac e Charles Babbage. Atualmente, é diretor de pesquisa do Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica (DAMTP) e fundador do Centro de Cosmologia Teórica (CTC) da Universidade de Cambridge

JONH NASH

A ESQUIZOFRENIA NÃO É IMPEDITIVA DE RACIOCÍNIO LÓGICO, NEM DA PESSOA ACOMETIDA DESTE DESEQUILÍBRIO EXERCER A SUA PROFISSÃO. TEMOS COMO EXEMPLO, ESTE GRANDE MATEMÁTICO. QUEM DIZ O CONTRÁRIO NÃO ESTÁ INFORMADO. EXISTEM NEUROLÉTICOS DESDE A DÉCADA DE 50 DO SÉCULO XX. VEJAMOS UM POUCO DE JONH NASH.
JONH NASH
John Forbes Nash Jr. (Bluefield, 13 de junho de 1928) é um matemático norte-americano que trabalhou com teoria dos jogos, geometria diferencial e equações diferenciais parciais, servindo como Matemático Sénior de Investigação na Universidade de Princeton. Compartilhou o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 1994 com Reinhard Selten e John Harsanyi.
Nash também é conhecido por ter tido sua vida retratada no filme Uma Mente Brilhante, vencedor de 4 Óscars (indicado para 8), baseado no livro-biográfico homônimo, que apresentou seu gênio para a matemática e sua luta contra a esquizofrenia. VER MAIS EM

terça-feira, 31 de março de 2015

LENDA DOS TRIPEIROS



    Naquele dia de mil quatrocentos e quinze, o sol nascia sobre o rio Douro com uma estranha luminosidade. E nas margens do rio tudo se transformara num arsenal. Arsenal gigante, onde se construíam naus e barcos para uma grande aventura marítima. Aventura rodeada de mistério…

    Por isso mesmo, por nada se saber ao certo, os boatos multiplicavam-se, chocavam entre si, tomando por vezes foros de revelações sensacionais. E assim, nessa manhã bonita e estranha, Mestre Vaz e um dos seus ajudantes, o moço Simão, trocavam ideias e palpites, perante a atenção curiosa dos que os rodeavam.
       Pois é como lhes digo, rapazes! Estou certo que tudo isto é para levar a Senhora Infanta Dona Isabel até Inglaterra, onde vai casar…
   E Mestre Vaz olhava os circunstantes num olhar de desafio, como se ninguém pudesse pôr em dúvida a sua afirmação. Mas enganou-se. Simão, o jovem Simão não concordava.
      Ora, Mestre Vaz, não diga semelhante coisa… Cá por mim, já sei: esta armada que estamos a preparar servirá para levar el-rei, o Senhor D. João I, a Jerusalém, a fim de cumprir a promessa de visitar o Santo Sepulcro.
  Mestre Vaz sorriu. Sorriso alegre, mas irónico.
      A quem o dizes!... Eras tu garoto ainda… ou nem sequer tinhas nascido… quando o nosso rei fez essa promessa, se vencesse Castela…
   E enchendo o peito de ar, e olhando profundamente para todos, Mestre Vaz concluiu, alteando a voz:
    E o nosso rei venceu! Vencemos… porque eu também estive lá!
    O quê? Mestre Vaz também foi nessa armada?
     Sim jovem Simão… Aqui onde me vês, tenho lutado muito por esse mundo de Cristo…
E rindo-se disse:
     Todos têm ainda de aprender muito comigo…
Fez-se silêncio.
Simão cortou-o.
    Ora, desta vez não vamos para a guerra.
Mestre Vaz olhou-o demoradamente. Intencionalmente e disse:
  Sabe-se lá Simão sabe-se lá… olhou o sol, deu um grito de alarme:
   Eh rapazes. Vamos ao trabalho.
E todos se atiraram à sua faina na ansia de não perder o tempo…
Mestre Vaz e Simão só voltaram a encontrar-se à hora do almoço.
   Olha, aí vem a tua mãe Simão.
    Já a tinha visto, Mestre Vaz… obrigado. E vem com cara de quem traz novidades.
O outro riu-se.
     Até parece que nem conheces a tua mãe… Nunca se viu a Senhora Joana sem novidades para contar…
    Como? Que dizeis vós? Então não sabeis ainda o que se conta por aí?
     Ora minha mãe… são rumores com certeza… esta gente só sabe espalhar rumores.
A Senhora Joana revoltou-se.
     Não são rumores, não senhor…
E aproximou-se, com ar de segredo.
Ficai sabendo que esta armada é para ir a Nápoles com os Senhores Infantes D. Pedra e D. Henrique, que ali vão casar… (um dos muitos boatos que surgiram na época)
     E ficou à espera da reação de pasmo dos dois homens. Mas, em vez de pasmo, surgiu a risota.
   O quê, Senhora Joana, logo os dois ao mesmo tempo?
    Pois claro! O Senhor D. Pedro vai casar com a rainha viúva da Cecília. E o Senhor D. Henrique…
   O quê, minha mãe? Então pensa que o Senhor D. Henrique vai casar? ... Oh, mãe, não diga tal coisa!...
  Acabou por ser a mulher a mostrar-se surpreendida.
    E… que tem isso de especial?
Mestre Vaz adiantou-se.
  Oiça, Senhora Joana… Já que quer saber a verdade, não é nada do que pensa. Eu já disse ao seu filho…
    Mas ela não o deixou terminar. Embalada por uma onda de brio ferido, volveu-lhe, irada:
    E o Mestre Vaz tem a mania que sabe tudo, não é verdade? …
Olhe que também se pode enganar…
     O outro abanou a cabeça toda branca.
    Com a idade que tenho, Senhora Joana não é fácil a gente enganar-se…
    Ora se vamos falar de idades, estamos bem servidos, Mestre Vaz!
O jovem Simão viu-se obrigado a intervir.
   Bem, bem… Não se zanguem… Quando se encontram, ficam sempre a caturrar… Vamos ao almoço, que são horas.
   A mulher calou-se e começou a dispor as coisas para o almoço. Por seu turno Mestre Vaz resmungou:
  E é aproveitar, porque temos de comer depressa… isto ainda vai muito atrasado… e dizem que o Senhor Infante D. Henrique vem cá no domingo…

E, de facto, dessa vez não foi boato…
 O Infante D. Henrique apareceu inesperadamente no Porto, para ver o andamento dos trabalhos… (Dá-se como certo. Historicamente, o Infante D. Henrique esteve no Porto todo o mês de janeiro de 1415 para vigiar pessoalmente a construção da frota mandada construir segundo os seus planos)
  Segundo a lenda o Infante D. Henrique entendeu que esforço dos trabalhadores para construir a frota não era suficiente, tinha de ser maior. Mandou chamar Mestre Vaz, que se apresentou sem demora.
    Aqui estou, Senhor Infante… Recebi o vosso recado e vim sem imediatamente.
    Muito me satisfazeis com o vosso zelo, Mestre Vaz. Aproximai-vos.
    Senhor, é assim tão importante o que tendes para me dizer?
Mais do que podereis julgar.
E baixando a voz, o Infante disse:
     O que tenho para vos dizer… é segredo!
     Oh, Senhor Infante… Eu não mereço…
Um breve sorriso desenhou-se no rosto duro de D. Henrique.
    Não tenhais receio escolhi-vos porque sei que sois leal e fiel.
E segregando disse todos esses rumores que por aí correm sobre o destino da armada andam longe da verdade!
   Mestre Vaz abriu a boca para falar, mas calou-se. O Infante fez-lhe sinal para que falasse. E ele confessou:
   Eu tenho calculado isso mesmo, meu Senhor… pareciam-me boatos só para desviar a atenção.
   Tal e qual, velho Mestre, tal e qual!... Mas vós ides saber a verdade.
Só vós, compreendeis bem?... É necessário que não saia desta sala uma única palavra do que vos vou dizer… Em contrapartida, preciso absolutamente que me ajudeis depois com toda a vossa experiência.
   «Como se fizesse um juramento solene, o velho marinheiro garantiu com voz firme e resoluta.
  Contai inteiramente comigo, Senhor Infante!
  Obrigado!
E medindo as palavras o Infante revelou:
Esta armada que estamos a construir destina-se à conquista de Ceuta (foi essa empresa arriscada e meritória que o infante D. Henrique escolheu para se armado cavaleiro, juntamente com seus irmãos D. Duarte e D. Pedro.)
  O meu grande sonho vai finalmente concretizar-se, Metre Vaz… Nós conquistaremos Ceuta. El-rei meu pai consente que partamos!
   O velho marinheiro persignou-se.
      Que Deus vos oiça, Senhor Infante D. Henrique.
  Houve uma nova pausa entre os dois…
O Infante olhou bem de frente o velho marinheiro de cabelos brancos.
    Agora, mais do que nunca, preciso de vós e de todos os homens experientes e dedicados, como vós, Mestre Vaz! É necessário fazer sacrifícios ainda maiores… Percebeis o que quero dizer?
  Percebo, sim, Senhor Infante! Quereis que trabalhemos noite e dia, sem cessar… para a frota estar pronta a partir de uma certa data…
  Isso mesmo Mestre Vaz!... Eu desejo que a armada esteja pronta a partir dos primeiros dias de Julho. Para isso será necessário um esforço quase sobre-humano (o desejo do Infante realizou-se a armada entrou no tejo na manhã do dia 10 de julho)
    Pois faremos esse esforço, Senhor!... Pelo reino, por el-rei e por vós…
    E também pela cidade do Porto… Eu vos juro que faremos esse esforço!  
    Como sabe bem ouvir essas palavras Mestre Vaz!
    Digo-vos mais, Senhor Infante, se mo permitis… Faremos agora o que fizemos há precisamente 30 anos, quando daqui abalou a frota comandada por D. Rui Pereira, para ir auxiliar el-rei, vosso pai e nosso Senhor, contra os inimigos vindos de Castela… (batalha de Aljubarrota?) Então, nós, Senhor Infante, decidimos dar toda a carne para mantimentos e comermos apenas as tripas que iam ficando… Por isso mesmo, até passaram a chamar-nos «tripeiros».
     Somos «tripeiros», sim, e com muita honra!
    Oque me contais Mestre Vaz é na verdade extraordinário, Mestre Vaz! Tendes razão… Esse nome de tripeiros, por sacrifício tão nobre e tão alto, é sem dúvida uma verdadeira honra para os homens do Porto. Bem vos podeis orgulhar de serdes tripeiros!
    Pois, Senhor Infante, agora o será de novo, para que toda a carne que pudermos arranjar siga também na armada, a caminho da grande vitória de Ceuta.
   Dizeis bem, Mestre Vaz!... A caminho da grande vitória de Ceuta!

Daí em diante, segundo nos conta a velhíssima lenda, Mestre Vaz, sem revelar, nunca, o segredo que lhe foi confiado, não se cansou de apregoar a mesma ideia, a todas as gentes da cidade do Porto.
  É o que vos digo, companheiros! Temos de nos sacrificar de novo para honra do nosso reino e para a honra da nossa cidade do Porto! Tal como nos chamaram tripeiros há 30 anos, poderão agora chamar-nos tripeiros para sempre. Nós guardaremos esse título com altivez!
    As suas palavras foram escutadas e repetidas. Transformaram-se num lema. Numa bandeira de compreensão. Acorreram adesões de todos os lados.
   Seja qual for o nosso destino, se o Senhor Infante precisa de nós, nós estaremos com ele!
   Mestre Vaz gritava agradecendo a todos que acorriam ao seu chamado:
    Viva a gente do Porto! Viva o Povo Tripeiro!

E tal com a nossa História narra, mercê do invulgar sacrifício dos heroicos Tripeiros, de facto, no dia 10 de julho de 1415, fundeava em Lisboa a grande frota do Infante D. Henrique, com as suas sete galés e as suas vinte naus, a caminho da conquista de Ceuta…

 FONTE: LENDAS DE PORTUGAL VOLUME 2; Gentil Marques: Circulo e Leitores,

Coimbra, Março de 2015
Carminda Neves








sexta-feira, 27 de março de 2015

DÉBIL MENTAL

ESTA LETRA DEVIA TER SIDO CANTADA A HITLER (E A MUITOS NA ERA ACTUAL) QUANDO ELE CLASSIFICOU AS PESSOAS PORTADORAS DE DOENÇA PSICOLÓGICA DE "DÉBEIS MENTAIS" E OS MANDOU PARA OS FORNOS CREMATÓRIOS PARA SEREM EXTERMINADOS, JUNTO COM PESSOAS DE INTELIGÊNCIA SUPERIOR EX: JUDEUS, CIGANOS DEFICIENTES FÍSICOS ETC ETC. DIGO COMO O POEMA: "HOMEM DE AFECTAÇÃO BEIJA-ME O CU!.

Débil Mental

É que eu não sou um débil mental, 
Eu posso estar errado ou ter agido mal, 
Mas pago o preço que eu tiver de pagar, 
Se for pra tal eu sofro só. 
Se não te agrada a forma de eu falar, 
Acorda e vê que eu cago pró teu não gostar. 
Se as minhas calças, 
Parecem de um pijama, 
Da próxima vez eu saio como entrei na cama. 
Só me agrada ser quem quero, 
Longe de uma falsa situação. 
Masturbação, 
Não fica só pela palma da mão. 
E é tão mau, 
Se a dita v.i.p. fala caro e faz pensar que eu sou vulgar. 
Eu sou, 
Só não aguento, 
É que ela diga tanta prosa e seja só ar, 
E nem o ar é puro! 
Hipocrisia é mal que eu não suporto, 
Pior até que o não pensar. 
Mas a verdade é que eu não sofro pelo mal, 
Mas pelo meu bem. 
Diz meu mal ou leva-me à razão. 
Quero andar por fora do que eu sou, 
Deixar o tempo ver, 
Do que é capaz. 
Sobre o que gira à volta já falei, 
Contudo há certas coisas em que eu não pensei, 
Se o meu destino é negro ou claro, 
Quem vai dizer nada muda em nada tudo o que eu pensei fazer. 
O mundo não é nada, 
Nada à minha beira, 
se tudo o que acredito já está preso à cadeira. 
E tudo o que eu faço é pensado em mim, 
No fundo eu sei que toda a gente acaba sendo assim. 
Diz meu mal ou leva-me à razão. 
Quero andar por fora do que eu sou, 
Deixar o tempo ver, 
Do que é capaz. 
Não vejo nada contra o infalível, 
Fala bem fala a minha língua, 
Que eu não sou tu, 
Homem de afetação, 
Beija-me o cú, 
Livra livra já não posso mais ouvir! 
É tanta coisa fora do normal, 
Procuras água no deserto. 
Quem sabe até nos faz bem. 
Eu sou mais eu sem nimguém. 
A minha vida não tem nexo, 
Dar-lhe um rumo é dar-lhe um fim. 
Meu bem dói ou não, 
Não eras tu contra a traição, 
Quem evitou, 
Por fim o mal, 
Não foi a pura mas o bébil mental! 
Só me agrada ser quem quero, 
Longe de uma falsa situação. 
Só me agrada ser quem quero, 
Longe de uma falsa situação. 
(São) quem são e em nada são iguais, 
Quem é mais? 
Há que eu saiba um ponto igual em nós: 
Sermos tão desiguais! 

Enviado por: Mafalda Mota

Link: http://www.vagalume.com.br/ornatos-violeta/debil-mental.html#ixzz3VbzazcUx

COIMBRA, MARÇO DE 2015
CARMINDA NEVES