Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por
um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e
de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de
zero!
Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro
impotente!
Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em
seco!
O Dantas é um cigano!
O Dantas é meio cigano!
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá
medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a
única coisa que ele faz!
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos
com ligas de duquesas!
O Dantas é um habilidoso!
O Dantas veste-se mal!
O Dantas usa ceroulas de malha!
O Dantas especula e inocula os concubinos!
O Dantas é Dantas!
O Dantas é Júlio!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser
como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis,
ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!
E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o
Dantas agradeceu!
O Dantas é um ciganão!
Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro,
basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador,
basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem
artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as
opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco
e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas nasceu para provar que nem todos os que
escrevem sabem escrever!
O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a
gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro!
O Dantas é um soneto dele-próprio!
O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em
talento é pim-pam-pum.
O Dantas nu é horroroso!
O Dantas cheira mal da boca!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas é o escárnio da consciência!
Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!
O Dantas é a vergonha da intelectualidade
portuguesa!
O Dantas é a meta da decadência mental!
E ainda há quem não core quando diz admirar o
Dantas!
E ainda há quem lhe estenda a mão!
E quem lhe lave a roupa!
E quem tenha dó do Dantas!
E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e
que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!
Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu
vou-lhes contar:
A princípio, por cartazes, entrevistas e outras
preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror
Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois
ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram pra
português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era
noite muito escura e só depois de meio ato é que descobri que era de
madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do
Sol!
A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas
não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas
uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de
Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.
A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às
escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto.
Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela
com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de
observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da
Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre
capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.
A Mariana que é histérica começa a chorar
desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau-de-cabeleira
soror Inês.
Vêm descendo pla dita estreitíssima escada, várias
Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e
bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.
E seria até uma excelente personificação das bruxas
de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia
Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga
espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda... Quem está
aí?... E de candeias apagadas?
- Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de
terror... E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar
curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d'alma o ouvi-la assim
tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão
sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra plo salão um
bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.
Agora completamente emendado revela à abadessa que
sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há
pouco vira um de cavalos a saltar pla janela. A abadessa diz que efetivamente
já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha,
coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo pra descobrir a razão
da humanidade estar dividida em homens e mulheres. Depois de sérios embaraços
do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de
há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma um
pedaço d'interesse porque o bispo ora parece um polícia de investigação
disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia
d'investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o
público já está farto de saber - que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é
que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a
berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito
perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou
de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu
todas as expectativas.
Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e
Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual
pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente
plo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de
costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o
pano cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas
pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia
seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.
A única consolação que os espectadores decentes
tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas
sim uma merdariana-aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.
Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de
ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de
prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento
erecto por subscrição nacional do "Século" a favor dos feridos da
guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da
cidade plos aniversários, e sabonetes em conta "Júlio Dantas" e
pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e
comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas...
E limonadas Dantas- Magnésia.
E fique sabendo o Dantas que se um dia houver
justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas
que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo
Camões.
E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como
eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.
Mas julgais que nisto se resume literatura
portuguesa? Não Mil vezes não!
Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá
Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do
Chianca.
E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no
tempo da avózinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito
de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do
ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo!
E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecelidades do Sousa Costa! E mais
pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas
do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da
República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os
teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal
que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez
do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa
Pinto hu hi e os burros de cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E (o)
raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa
piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas!
E as exposições anuais das Belas-Arte(s)! E todas as maquetas do Marquês de
Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena,
os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros,
os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os
celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os
Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve,
os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os
Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que
houver por aí!!!!!!!!!
E as convicções urgentes do homem Cristo Pai e as
convicções catitas do homem Cristo Filho!...
E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao
Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo
por causa do Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Portugal que com todos estes senhores conseguiu a
classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais
selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A
África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos!
Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é
incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem
de ser qualquer coisa de asseado!
Morra o Dantas, morra! Pim!
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José de Almada Negreiros
Poeta d'Orpheu Futurista E Tudo
1915
Acerca se
Almada Negreiros
José Sobral de Almada Negreiros GOSE
(Trindade, São Tomé e Príncipe, 7 de Abril de 1893 — Lisboa, 15 de Junho de
1970) foi um artista multidisciplinar português que se dedicou fundamentalmente
às artes plásticas (desenho, pintura, etc.) e à escrita (romance, poesia,
ensaio, dramaturgia), ocupando uma posição central na primeira geração de
modernistas portugueses
Almada Negreiros é uma figura ímpar
no panorama artístico português do século XX. Essencialmente autodidata (não
frequentou qualquer escola de ensino artístico), a sua precocidade levou-o a
dedicar-se desde muito jovem ao desenho de humor. Mas a notoriedade que
adquiriu no início de carreira prende-se acima de tudo com a escrita,
interventiva ou literária. Almada teve um papel particularmente ativo na
primeira vanguarda modernista, com importante contribuição para a dinâmica do
grupo ligado à Revista Orpheu, sendo a sua ação determinante para que essa
publicação não se restringisse à área das letras. Aguerrido, polémico, assumiu
um papel central na dinâmica do futurismo em Portugal: "Se à introversão
de Fernando Pessoa se deve o heroísmo da realização solitária da grande obra
que hoje se reconhece, ao ativismo de Almada deve-se a vibração espetacular do
«futurismo» português e doutras oportunas intervenções públicas, em que era
preciso dar a cara
Em Portugal as águas agitam-se. A
política está em ebulição. Os partidos monárquicos não se entendem. Todos
ambicionam o poder. Enquanto isto, os republicanos unem-se, movimentam-se. O 5
de Outubro de 1910, a Revolução. É a implantação da República. Muitos são
perseguidos. Novas ideiam adotadas. Combate-se o passado. O anticlericalismo
grassa. Não tinha sido a Igreja o grande protetor do poder? É preciso remodelar.
Os Jesuítas são uma elite. A sua influência deve acabar. O Colégio de Campolide
é extinto.
Almada vai para o Liceu de Coimbra.
Não por muito tempo. Em 1911 ingressa na Escola Internacional em Lisboa. O
sistema de ensino é diferente. Facilitam-lhe um espaço que serve de oficina.
Aprende por conta própria.
"Eu sou o resultado consciente
da minha própria experiência"
O movimento artístico português
necessita de inovação. Os artistas plásticos continuam a satisfazer os gostos
de uma sociedade burguesa. O naturalismo predomina na arte. Os impressionistas
não têm repercussões em Portugal. É um país limitado. Almada sabe-o. Há que
dizê-lo.
Em 1913 publica o primeiro desenho
n’A Sátira - é necessário agitar a mentalidade artística portuguesa. No mesmo
ano faz a primeira exposição individual. São cerca de 90 desenhos.
Fernando Pessoa escreve uma crítica à
exposição. Quando Almada o aborda, responde-lhe que não percebe nada de arte...
Nasce a amizade.
Almada Negreiros participa no
lançamento da revista ORPHEU.
Júlio Dantas deprecia o trabalho. Reações à
inovação. Critica a publicidade feita à revista. Afirma não haver justificação
para o sucesso. Diz que os autores são pessoas sem juízo.
A 21 de Outubro do mesmo ano
estreia-se a peça Soror Mariana. O autor é Júlio Dantas. Almada vai agora
reagir. Publica o Manifesto Anti Dantas e por extenso. O manifesto não é apenas
contra Dantas. É uma reação contra uma geração tradicionalista, uma sociedade
burguesa, um país limitado.
No fim assina: POETA D' ORPHEU,
FUTURISTA E TUDO.
Almada é também um caso particular no modo
como se posicionou em termos de carreira artística. Esteve em Paris, como quase
todos os candidatos a artista então faziam, mas fê-lo desfasado dos
companheiros de geração e por um período curto, sem verdadeiramente se entrosar
com o meio artístico parisiense. E se Paris foi para ele pouco mais do que um
ponto de passagem, a sua segunda permanência no estrangeiro revelou-se ainda
mais atípica. Residiu em Madrid durante vários anos e o seu regresso ficou associado
à decisão de se centrar definitiva e exclusivamente em Portugal.
A I Guerra Mundial assola a Europa.
Muitos artistas portugueses regressam a Portugal: Amadeu Sousa Cardoso,
Guilherme Santa Rita, Eduardo Viana, são alguns deles. Outros são refugiados:
Sónia e Robert Delaunay.
O Manifesto causa impacto nos meios
artísticos. Afinal há alguém que ousa contestar a cultura instituída. Alguém
que ousa criticar a sociedade, o País. Não se pode ficar ausente. É necessário
intervir. Unir esforços para que haja uma Acão artística. Um movimento que
cresça...
É o modernismo da arte portuguesa. O
movimento não pára: nas letras e nas artes. Portugal está no século XX. A
transformação é uma necessidade. É preciso agitar, por vezes provocando. Almada
fá-lo no Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do séc. XX
É preciso criar a Pátria Portuguesa
do séc. XX
O Povo completo será aquele que tiver
reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragens
Portugueses, só vos faltam as qualidades.
Almada Negreiros pinta murais em
Madrid.
Almada Negreiros faz os vitrais da
Igreja de Nossa Senhora de Fátima.
Almada Negreiros pinta os painéis das
Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha
Em 59 o SNI atribui-lhe o
"Prémio Nacional das Artes". Galardão que não serve para calar o
mestre. No mesmo ano Almada assina um protesto público pela nomeação de Eduardo
Malta para Diretor do Museu de Arte Contemporânea. Nunca o Mestre será moldado.
Continua a dizer o que pensa, mesmo que o poder não goste. É ainda o menino com
olhos de gigante.
O Estado sabe que não convém
hostilizar o Mestre. Tanto mais que Almada é um artista reconhecido,
homenageado. Melhor será partilhar a opinião geral. Decidem nomeá-lo procurador
à Câmara Corporativa na subsecção de Belas- Artes. No ano seguinte propõem-lhe,
e aceita, o Grande Oficialato da Ordem de Santiago Espada.
Almada tem 75 anos. A vitalidade
ainda perdura. Executa o painel Começar para o átrio da Fundação Calouste
Gulbenkian e os frescos para a Faculdade de Ciências da Universidade de
Coimbra.
Ao longo da vida empenhou-se numa
enorme diversidade de áreas e meios de expressão – desenho e pintura, ensaio,
romance, poesia, dramaturgia… até o bailado –, que Fernando de Azevedo
classifica de "fulgurante dispersão"5 . Sem se fixar num domínio
único e preciso, o que emerge é sobretudo a imagem do artista total,
inclassificável, onde o todo supera a soma das partes. Também neste aspeto
Almada se diferencia dos seus pares mais notáveis, Amadeo de Souza-Cardoso e
Fernando Pessoa, cuja concentração num território único, exclusivo, foi
condição necessária à realização das obras máximas que nos deixaram como
legado.
Personalidade incontornável, a
inserção de Almada Negreiros na vida e na cultura nacionais é extremamente
complexa; segundo José Augusto França, dele fica sobretudo a imagem de
"português sem mestre" e, também, tragicamente, "sem discípulos
Em 1970 o Retrato de Fernando Pessoa
é leiloado. Almada assiste ao leilão. O preço atingido, 1300 contos, causa
admiração. Nunca um pintor português conseguira tal proeza.
No mesmo ano assina o acordo para a
publicação do primeiro volume das suas Obras Completas.
Em Junho dá entrada no Hospital de S.
Luís dos Franceses.
No dia 15 morre. No mesmo quarto onde
morrera Fernando Pessoa.
Em tempos Almada respondera a alguém:
AS PESSOAS QUE EU MAIS ADMIRO SÃO
AQUELAS QUE NUNCA ACABAM
FONTE:youtube
Wikipédia, a enciclopédia livre.
Cristina Vaz
Coimbra,Fevereiro de 2015
Carminda Neves
|
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
MANIFESTO ANTI DANTAS - ALMADA NEGREIROS
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
AMIZADE E TRAIÇÃO
TRAIÇÃO
Do latim
traditĭo, a traição é o erro que quebra a lealdade ou a fidelidade que se
deveria guardar para com alguém ou algo. Consiste em renegar, seja através de
ações ou de dizeres (palavras), um compromisso de lealdade.
AMIZADE
Amizade
verdadeira é aquela que existe entre pessoas, entre pessoas e animais, onde um
pode confiar no outro acima de qualquer coisa.
A história e
a literatura estão cheias de exemplos de grandes amizades: Sherlock Holmes e
Watson, Dom Quixote e Sancho Pança, John Lennon e Paul McCartney… Mas nem
sempre a lealdade prevalece e alguns casos tiveram um desfecho trágico. Conheça
grandes traições que marcaram relações aparentemente inabaláveis.
TRAIÇÕES AO LONGO DA HISTÓRIA
A primeira
grande traição da História, está relatada na Bíblia: (simbólica ou não) é a de
Eva e Adão, quando traíram Deus, ao comer o fruto proibido! Resultado: a
humanidade foi expulsa do Paraíso e condenada a viver num verdadeiro inferno:
com guerras, fomes, diferenças sociais, etc. Reparemos que só os humanos vivem
estas situações, os restantes seres vivos do universo nosso conhecido são
inocentes.
Outra grande
traição que continua a ser relatada na Bíblia: Judas Iscariotes, um dos 12
apóstolos de Jesus Cristo, é o traidor mais famoso de todos os tempos. Tanto
que seu nome virou sinónimo de traidor. Por 30 moedas de prata ele entregou
Jesus aos romanos. Depois da última ceia, Judas o beijou no rosto, o sinal que
havia combinado com os soldados romanos. O fim da história toda conhece: Jesus
foi crucificado. Judas terá- se arrependido e suicidou-se. Covarde como era,
escolheu uma morte rápida (enforcou-se). A ironia é que esta traição, talvez
tenha sido, na verdade, a maior prova de amizade: ao trair Jesus, Judas teria
sido o único apóstolo a ajudá-lo a cumprir com seu destino.
Outra grande traição Marcus Junius Brutus,
membro da aristocracia romana, lutou contra César ao apoiar Pompeu Magno nas
guerras civis romanas, mas foi posteriormente perdoado e nomeado pretor, como
favorecido de Júlio César. Contudo, a lealdade do general romano não durou
muito tempo: ele conspirou com Cassius, outro general, para a morte do
imperador. Numa reunião do Senado, César foi apunhalado, caindo aos pés da
estátua de Pompeu. Suas últimas palavras teriam sido “Tu também, meu filho?”,
(Brutus era filho adotivo de César) ao referir-se a Brutus. A versão mais
conhecida veio da peça de Shakespeare: “Até tu, Brutus?”.
Outra grande traição ocorre na Lusitânia
quando esta foi ocupada pelos romanos. Roma cansada de derrotas, envia novo
general, Servílio Cipião. Este renova os combates com Viriato, mas este mantém
superioridade militar e força-o a pedir uma nova paz. Envia, neste processo,
três comissários de sua confiança (lusitanos que se venderam a Roma) Audas, Ditalco e Minuros. Cipião recorreu ao
suborno dos companheiros de Viriato, que assassinaram o grande chefe enquanto
dormia. Um desfecho trágico para Viriato e os lusitanos, e vergonhoso para
Roma, superpotência da época, e que se intitulava arauto da civilização.
A traição
está entre os capítulos mais sombrios - e saborosos - da História ocidental. A
própria Bíblia cita vários casos, além dos casos citados acima temos a traição
do primogênito de Adão e
Eva, Caim ficou enciumado da predileção de Deus por seu irmão mais novo. Levou
Abel para um campo deserto, onde o matou. Tratado de não-agressão
germano-soviético. O pacto estabelecia que a Alemanha nazista de Hitler e a
URSS de Stelina não iriam interferir uma na outra em termos bélicos até que, em
1941, sem grandes explicações, Hitler atacou os russos na Operação Barbarossa.
A URSS, após tamanha traição, entrou de vez na guerra ao lado dos Aliados. O
resto é história conhecida. Enfim. Há tantas histórias de amizade e traição,
sim! Porque para haver traição, tem de ter havido amizade ou pseudoamizade. A palavra
"traição", mudou de sentido ao longo do tempo. "Hoje ela é acima
de tudo um crime contra o Estado. Mas nem sempre foi esse o caso" Trair
começou a ganhar status laico e
jurídico na Roma antiga. Segundo o historiador do direito Simon Hirsch, os
romanos inventaram o conceito de crimen maiestatis (lesa-majestade) para atos
contra a soberania de Estado, o que incluía excentricidades como destruir a
estátua do imperador.
Mas a traição também existe entre as pessoas
comuns, que não hesitam em servir-se de um amigo enquanto o consideram útil, e
dar-lhe um pontapé quando já não o é. Todos nós já fomos vítimas de traição,
por aquelas pessoas que considerávamos as nossas melhores amigas. Sim! Essas mesmas
por quem até daríamos a vida
O escritor e jornalista Baptista Bastos disse
uma frase, que eu considero extraordinária, no programa INESQUECÍVEL da RTP 1,
com Júlio Isidro. Vejamos: “NÃO HÁ ATO
MAIS SÓRDIDO E REPUGNANTE DO QUE TRAIR UM AMIGO”. Como eu concordo com esta
frase! Obrigada Baptista Bastos por a dizer num programa público.
Armando
Baptista-Bastos (Lisboa, 27 de Fevereiro de 1934) é um jornalista e escritor
português.
Estudou na
Escola de Artes Decorativas António Arroio e no Lycée Français Charles
Lepierre, em Lisboa. Iniciou a sua carreira profissional na redação de O Século
passando, de seguida, a subchefe de redação de O Século Ilustrado. Foi redator
de outros jornais, como O Diário, República, Europeu, Almanaque, Seara Nova,
Gazeta Musical e Todas as Artes, Época, Sábado e Diário Popular, onde permaceu por
duas décadas. Foi correspondente da Agence France-Presse, em Lisboa. Assinou
ainda várias colunas no Jornal de Notícias, A Bola, Tempo Livre e, como
crítico, colaborou com o Jornal de Letras, Artes e Ideias, o Expresso, o Jornal
do Fundão, o Correio do Minho e o Diário Económico. Fundou ainda o semanário O
Ponto, periódico que registou uma série de entrevistas semanais. Na rádio leu
as suas crónicas, nomeadamente na Antena 1 e na Rádio Comercial. Atualmente é
colunista do Diário de Notícias e do Jornal de Negócios.
Na televisão
deu-se a conhecer como apresentador, na década de 1990, do programa Conversas
Secretas na SIC. A convite do jornal Público, realizou uma série de dezasseis
entrevistas sob a designação «Onde é que você estava no 25 de Abril?», posteriormente
editadas em CD-ROM.
RTP 1
Coimbra, Janeiro de 2015
Carminda Neves
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
CANÇÃO DE MADRUGAR
Poema maravilhoso e revolucionário de José Carlos Ary dos
Santos, Música "diferente" também revolucionária de Nuno Nazareth
Fernandes, canta Hugo Maia de Loureiro.
A censura não reparou? Estávamos em 1970
CANÇÃO DE MADRUGAR
De linho te vesti
De nardos te enfeitei
Amor que nunca vi
Mas sei...
Sei dos teus olhos acesos na noite
Sinais de bem despertar
Sei dos teus braços abertos a todos
Que morrem devagar
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo pode acender
Uma fogueira de sol e de fúria
Que nos verá nascer
Irei beber em ti
O vinho que pisei
O fel do que sofri
E dei... dei...
Dei do meu corpo o chicote de força
Razei meus olhos com água
Dei do meu sangue uma espada de raiva
E uma lança de magua
Dei do meu sonho uma corda de insonias
Cravei meus braços com setas
Descubri rosas alarguei cidades
E construi poetas
E nunca, nunca te encontrei
Na estrada do que fiz
Amor que não lucrei
Mas quis... quis...
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo há-de acender
Uma fogueira de sol e de furia
Que nos verá nascer
Então nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem...
pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem...
feras, nem ferros, nem farpas, nem farças, nem...
forcas, nem gardos, nem dardos, nem guerras, nem...
choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem...
pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem...
feras, nem ferros, nem farpas, nem farças, nem mal...
José Carlos Ary
dos Santos
José Carlos Pereira Ary dos Santos GOIH (Lisboa, 7 de
Dezembro de 1937 — Lisboa, 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e declamador
português.
Ficou na História da música portuguesa por ter escrito
poemas de 4 canções participantes no Festival Eurovisão da Canção: Desfolhada
Portuguesa (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, Menina do Alto da
Serra (1971), interpretada por Tonicha, Tourada (1973), interpretada por
Fernando Tordo e Portugal no Coração (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos.
Proveniente de uma família da alta burguesia, com
antepassados aristocratas, era filho do médico Carlos Ary dos Santos
(1905-1957) e de Maria Bárbara de Miranda e Castro Pereira da Silva
(1899-1950).
Estudou no Colégio de São João de Brito, em Lisboa, onde foi
um dos primeiros alunos. Após a morte da mãe, vê publicados, pela mão de vários
familiares, alguns dos seus poemas. Tinha catorze anos e viria, mais tarde, a
rejeitar esse livro. Ary dos Santos revelaria, verdadeiramente, as suas
qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos de idade. Várias poesias suas
integraram então a Antologia do Prémio Almeida Garrett.
Pela mesma altura, Ary, incompatibilizado com o pai,
abandona a casa da família. Para seu sustento económico exerce as mais variadas
atividades, que passariam pela venda de máquinas para pastilhas elásticas, até
ao trabalho numa empresa de publicidade. Não cessa de escrever e, entretanto,
dá-se a sua estreia literária efetiva, com a publicação de A Liturgia do Sangue
(1963). Em 1969 adere ao Partido Comunista Português, com qual participa
ativamente nas sessões de poesia do então intitulado Canto Livre Perseguido.
Através da música chegará ao grande público, concorrendo,
por mais que uma vez, ao Festival RTP da Canção, sob pseudónimo, como exigia o
regulamento. Classificar-se-ia em primeiro lugar com as canções Desfolhada
Portuguesa (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, Menina do Alto da
Serra (1971), interpretada por Tonicha, Tourada (1973), interpretada por
Fernando Tordo e Portugal no Coração (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos.
Com Fernando Tordo escreve mais de 100 poemas para canções
do músico e o duo Tordo/Ary continua a ser, até hoje, um dos mais profícuos da
História da Música Portuguesa. São de suas autorias canções intemporais como
Tourada, Estrela da Tarde, Cavalo à Solta, Lisboa Menina e Moça, O amigo que eu
canto, Café, Dizer Que Sim à Vida e Rock Chock. Estas canções foram
interpretadas por cantores como Fernando Tordo, Carlos do Carmo, Mariza, Amália
Rodrigues, Mafalda Arnauth e Paulo de Carvalho.
Após o 25 de Abril, torna-se um ativo dinamizador cultural
da esquerda, percorrendo o país de lés a lés. No Verão Quente de 1975,
juntamente com militantes da UDP e de outras forças radicais, envolve-se no
assalto à Embaixada de Espanha, em Lisboa.
Autor de mais de seiscentos poemas para canções, Ary dos
Santos fez no meio muitos amigos. Gravou, ele próprio, textos ou poemas de e
com muitos outros autores e intérpretes. Notabilizou-se também como declamador,
tendo gravado um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes, do
Padre António Vieira. À data da sua morte tinha em preparação um livro de
poemas intitulado As Palavras das Cantigas, onde era seu propósito reunir os
melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz -
Rua da Saudade, que pretendia ser uma autobiografia romanceada
Homem de forte personalidade e de apetites excessivos,
grande fumador e bebedor, acabaria por adoecer de cirrose, vindo a morrer a 18
de Janeiro de 1984. O seu nome foi dado a um largo do Bairro de Alfama,
descerrando-se uma lápide evocativa na fachada da sua casa, na Rua da Saudade,
onde viveu praticamente toda a sua vida. Ainda em 1984 foi lançada a obra VIII
Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor de Manuel Gusmão e
planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade
Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro. Em 1988, Fernando Tordo
editou o disco O Menino Ary dos Santos, com os poemas escritos por Ary dos
Santos na sua infância. Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e
Luanda Cozetti dão voz ao álbum de tributo Rua da Saudade - canções de Ary dos
Santos.
Hoje, o poeta do povo é reconhecido por todos e todos
conhecem José Carlos Ary dos Santos, pois a sua obra permanece na memória de
todos e, estranhamente, muitos dos seus poemas continuam atualizados. Todos os
grandes cantores o interpretaram e ainda hoje surgem boas vozes a cantá-lo na
perfeição. Desde Fernando Tordo, Simone de Oliveira, Tonicha, Paulo de
Carvalho, Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Maria Armanda, Teresa Silva
Carvalho, Vasco Rafael, entre outros, até aos mais recentes como Susana Félix,
Viviane, Mário Barradas, Vanessa Silva e Katia Guerreiro.
A 4 de Outubro de 2004 foi feito Grande-Oficial da Ordem do
Infante D. Henrique a título póstumo.2
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Youtbe
Janeiro, de 2015
Carminda Neves
domingo, 16 de novembro de 2014
Florbela Espanca
Filha de Antónia da Conceição Lobo e do republicano João Marya Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894 em Vila Viçosa, no Alentejo. O seu pai herdou a profissão de sapateiro, mas passou a trabalhar como antiquário, negociante de cabedais, desenhista, pintor, fotógrafo e cinematografista. Foi um dos introdutores do "Vitascópio de Edison" em Portugal.
O seu pai era casado com Mariana do Carmo Toscano. Embora sua esposa fosse estéril, João Maria teve filhos de um caso extraconjugal; e assim nasceram Florbela e, três anos depois, Apeles, ambos filhos de Antónia da Conceição Lobo, e registados como filhos ilegítimos de pai incógnito . João Maria Espanca criou-os na sua casa, e, apesar de Mariana ter passado a ser madrinha de baptismo dos dois, João Maria só reconheceu Florbela como a sua filha em cartório dezoito anos após a sua morte.
Em 1913 casou-se em Évora com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola. O casal morou primeiro em Redondo.3 Em 1915 instalou-se na casa dos Espanca em Évora, por causa das dificuldades financeiras
Em 1919 saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. A tiragem (duzentos exemplares ) esgotou-se rapidamente. Um ano mais tarde, sendo ainda casada, a escritora passou a viver com António José Marques Guimarães,6 alferes de Artilharia da Guarda Republicana.
Em meados do 1920 interrompeu os estudos na faculdade de Direito. Em 29 de Junho de 1921 pôde finalmente casar-se com António Guimarães. O casal passou a residir no Porto, mas, no ano seguinte, transferiu-se para Lisboa, onde Guimarães se tornou chefe de gabinete do Ministro do Exército.
Em 1925, divorciou-se pela segunda vez. Esta situação abalou-a muito. O seu ex-marido, António Guimarães, abriu mais tarde uma agência, "Recortes", que colecionava notas e artigos sobre vários autores. O seu espólio pessoal reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981. Ao todo são 133 recortes. Ainda em 1925, a poetisa casou com o médico Mário Pereira Lage, que conhecia desde 1921 e com quem vivia desde 1924. O casamento decorreu em Matosinhos, no Distrito do Porto, onde o casal passou a morar a partir de 1926.
Apeles Espanca, o irmão da escritora, faleceu num trágico acidente de avião.A sua morte foi devastadora para Florbela. Em homenagem ao irmão, Florbela escreveu o conjunto de contos de As Máscaras do Destino, volume publicado postumamente em 1931. Entretanto, a sua doença mental agravou-se bastante.6 Em 1928 ela teria tentado o suicídio pela primeira vez.
Em 1930 Florbela começou a escrever o seu Diário do Último Ano, publicado só em 1981. A 18 de Junho principiou a correspondência com Guido Battelli, professor italiano, visitante na Universidade de Coimbra, responsável pela publicação da Charneca em Flor em 1931.3 Na altura, a poetisa colaborou também no Portugal feminino de Lisboa, na revista Civilização e no Primeiro de Janeiro, ambos do Porto.
Florbela tentou o suicídio por duas vezes mais em Outubro e Novembro de 1930, na véspera da publicação da sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poetisa perdeu definitivamente a vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa do suicídio. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário, a 8 de Dezembro de 1930. A causa da morte foi a sobredose de barbitúricos.
A poetisa teria deixado uma carta confidencial com as suas últimas disposições, entre elas, o pedido de colocar no seu caixão os restos do avião pilotado por Apeles quando sofreu o acidente.3 O corpo dela jaz, desde 17 de Maio de 1964, no cemitério de Vila Viçosa, a sua terra natal
POEMA DE FLORBELA ESPANCA
Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Florbela Espanca ESPANCA
COIMBRA, NOVEMBRO DE 2014
CARMINDA NEVES
domingo, 9 de novembro de 2014
O Muro de Berlim
Foi uma construção
erguida em 1961 pelo regime socialista da hoje extinta República Democrática
Alemã, também conhecida como Alemanha Oriental, que se destinava a separar as
duas áreas da cidade de Berlim, à época dividida em um setor capitalista e
outro socialista. A construção deste abominável símbolo da Guerra Fria.
A construção do
muro deveu-se, sobretudo, a um fator da grande diplomacia, a Segunda Crise de
Berlim (1958 – 1962). A incorporação da Alemanha Ocidental à OTAN, em 1955, e a
busca de um novo equilíbrio europeu e global entre as duas superpotências
reacenderam a disputa em torno da questão alemã. E Berlim representava,
justamente, o nervo exposto em termos jurídico-diplomáticos. A disputa entre
Kruschov e Kennedy chegou a um impasse na fracassada Cúpula de Viena, em junho
de 1961. Na impossibilidade de, pelo menos, transformar Berlim (unificada) numa
cidade livre e controlada pela ONU, Moscou vai autorizar a RDA a estabelecer
uma fronteira (material) dentro dessa cidade que abrigava dois sistemas rivais.
Era a forma de fazer com que a “sua” Alemanha fosse também reconhecida de fato
e de jure.
Na noite de 13 de agosto de 1961, a milícia operária da RDA
criou uma fronteira física de arame (futuro Muro), cuja passagem se tornava um
ato internacional. Kennedy disse, então: “não é a melhor solução [ao problema
alemão], mas ao menos se evitou a guerra”. O próprio governo de Bonn (a capital
ocidental) foi, de certa forma, beneficiado pela divisão do país e pela
construção do muro. Pode superar o passado, se transformar em vanguarda do
“Mundo Livre”, recuperar sua legitimidade internacional e se livrar da esquerda
doméstica.
Enquanto as pessoas simples sofriam as consequências
cotidianas e psicológicas da divisão, na prática, um foco de tensão era eliminado
e, alguns meses depois, como consequência da Crise dos Mísseis em Cuba, era
instalado o Telefone Vermelho e tinha início uma era de distensão entre os EUA
e a URSS. As duas Alemanhas aproveitaram para construir uma identidade própria
em oposição “à outra”, gerando legitimidade e estabilidade interna.
Guerra
Fria
É a designação
atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos
entre os Estados Unidos e a União Soviética, compreendendo o período entre o
final da Segunda Guerra Mundial (1945) e a extinção da União Soviética (1991),
um conflito de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e
ideológica entre as duas nações e suas zonas de influência. É chamada
"fria" porque não houve uma guerra direta entre as duas
superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma batalha nuclear.
A situação de
liberdade na União Soviética possibilitou um afrouxamento na ditadura que
Moscou impunha aos outros países. Pouco a pouco, o Pacto de Varsóvia começou a
enfraquecer, e cada vez mais o Ocidente e o Oriente caminhavam para vias
pacíficas. Em 1986, Ronald Reagan encontrou Gorbachev em Reykjavík, Islândia,
para discutir novas medidas de desarmamento dos mísseis estacionados na Europa.
Foi Raymond Aron que cunhou a
expressão Guerra Fria ao período histórico que sucedeu a Segunda Guerra
Mundial. E, durante o mesmo período, disse a célebre frase: "Guerra
improvável, paz impossível". Raymond Aron (Paris, 14 de março de 1905 -
Paris, 17 de outubro de 1983) foi um filósofo, sociólogo e comentarista
político francês.
. (Podemos dizer que uma das principais causas
da Segunda Grande Guerra foi o Tratado de Versalhes. Esse Tratado, assinado em
1919 e que encerrou oficialmente a Primeira Grande Guerra, determinava que a
Alemanha assumisse a responsabilidade por ter causado a Primeira Guerra e
obrigava o país a pagar uma dívida aos países prejudicados, além de outras
exigências como o impedimento de formar um exército reforçado e o
reconhecimento da independência da Áustria. Isso é claro, trouxe revolta aos
alemães, que consideraram estas obrigações uma verdadeira humilhação.
O INÍCIO DA GUERRA
Um conflito sangrento que deixou danos irreparáveis em toda a
humanidade. Uma guerra entre Aliados e as Potências do Eixo. China, França,
Grã-Bretanha, União Soviética e EUA formavam os Aliados, enquanto, que
Alemanha, Japão e Itália formavam as Potências do Eixo. Estes últimos tinham
governos fascistas e tinham por objetivo dominar os povos, que na opinião deles
eram inferiores, e construir grandes impérios.
NOTA
Na Europa surgiram partidos políticos que pregavam a instalação de um
regime autoritário. Esses partidos formavam um movimento denominado Fascismo.
Os fascistas acreditavam que a democracia era um regime fraco e incapaz de resolver
a crise econômica. O país precisava de um líder com autoridade suficiente para
acabar com a “bagunça” instalada, promovida por grevistas, criminosos e
desocupados.
PRINCIPAIS DITADORES FASCISTA
- Benito Mussolini: Itália.
Hitler: Alemanha (Os fascistas alemãs eram
chamados de nazistas).
- Franco: Espanha.
Com a derrota da
Alemanha e sua consequente ocupação pelas forças aliadas. Cada país vencedor
"herdou" um setor da cidade de Berlim, e desse modo foram criados um
setor americano, um inglês, um francês e outro soviético. Os três primeiros
uniram-se para formar a área da cidade que adotaria o regime capitalista.
(“Vivemos em um mundo
capitalista!”. Certamente, esta frase foi dita ou ouvida pela maioria das
pessoas, porém muitos ainda não sabem o que significa viver em um mundo
capitalista. Capitalismo é o sistema socioeconómico em que os meios de produção
(terras, fábricas, máquinas, edifícios) e o capital (dinheiro) são propriedade
privada, ou seja, tem um dono. Antes do capitalismo, o sistema predominante era
o Feudalismo, cuja riqueza vinha da exploração de terras e também do trabalho
dos servos. O progresso e as importantes mudanças na sociedade (novas técnicas
agrícolas, urbanização, etc) fizeram com que este sistema se rompesse. Estas mesmas
mudanças que contribuíram para a decadência do Feudalismo, cooperaram para o
surgimento do capitalismo. Os proprietários dos meios de produção (burgueses ou
capitalistas) são a minoria da população e os não-proprietários (proletários ou
trabalhadores – maioria) vivem dos salários pagos em troca de sua força de
trabalho.)
, Berlim Ocidental, que seria anexada à nascente
República Federal da Alemanha (a capitalista Alemanha Ocidental). O lado
soviético daria origem a Berlim Oriental, que se tornaria a capital da Alemanha
Oriental.
Era
popularmente conhecida como Alemanha Oriental o antigo estado formado pela
parte mais a leste da atual Alemanha, chamado oficialmente de República
Democrática Alemã (RDA ou Deutsche Demokratische Republik - DDR, no original em
alemão), e que existiu de 1949 a 1990. O RDA era um estado socialista, fundado
nos mesmos moldes dos outros estados socialistas do leste europeu existente à
mesma época.
Cortina de
Ferro
(É uma expressão célebre utilizada
para designar o domínio da extinta União Soviética sobre os países do leste da
Europa. Tal nome surgiu de um discurso do primeiro-ministro britânico Winston
Churchill, proferido a 5 de março de 1946 no Westminster College, na cidade de
Fulton, Missouri, nos Estados Unidos.
Afirmava Churchill em seu famoso discurso
que "...uma cortina de ferro desceu sobre a Europa...", dando a
entender que havia sido estabelecida uma severa divisão político-ideológica
entre os regimes autoritários comunistas e os sistemas liberais capitalistas,
com a imagem do bloco socialista pintada como a vilã da contenda. A URSS,
vencida as potências do eixo, era agora a principal inimiga da coligação
anglo-saxâ, defensora dos valores da sociedade ocidental contemporânea.)
Tal situação (BERLIM
DIVIDIDA) gerou uma configuração inusitada dentro da Alemanha dividida, pois o
setor capitalista de Berlim estava mergulhado em território da Alemanha
Oriental, formando assim, um enclave capitalista dentro do país socialista,
complicando as comunicações de Berlim Ocidental com seu próprio país. Tal
dificuldade acentuou-se quando do lançamento do Plano Marshall, destinado a
ajudar economicamente todos os países europeus do bloco capitalista afetados
pela guerra, pois Stalin, contrariado pela negativa de cobertura do plano aos
países socialistas, resolve impor um bloqueio a Berlim Ocidental, fechando
todas as vias de comunicação. O objetivo dos russos era forçar os aliados a
abandonar o controlo de seu setor da cidade, porém tal manobra não deu os
resultados desejados, pois os americanos quebraram o bloqueio por meio de rotas
aéreas destinadas a abastecer e manter o status de Berlim Ocidental.
Após 1949, a situação parecia ter- se normalizado, e a
Berlim dividida mantinha suas duas fronteiras tão cercadas e vigiadas quanto
outros importantes pontos ao longo da Cortina de Ferro. A situação fica tensa
novamente no início da década de 1960, pois havia aumentado expressivamente o
número de cidadãos do lado oriental que "passavam" para o lado
ocidental, alarmando as autoridades da Alemanha Oriental. Na busca de evitar
qualquer possível contato com o mundo capitalista é então construído o muro que
iria manchar indelevelmente a imagem dos regimes da esquerda europeia. Por trás
da construção do muro estava Walter Ulbricht, secretário-geral do partido
comunista da Alemanha Oriental, o dirigente de facto do país e Nikita Kruschev,
dirigente soviético, que viram em sua construção um modo de desafiar os EUA.
Durante sua existência, a vigilância ferrenha promovida pelas tropas orientais
seria responsável pelas mortes de muitos que desafiaram o regime oriental e
decidiram ultrapassá-lo.
Com o colapso da União Soviética e seus satélites no
Leste Europeu, o muro começa a ser finalmente derrubado em 9 de novembro de
1989, acabando com um dos símbolos máximos da opressão dos regimes socialistas.
Seu desmanche é também símbolo do fim da Guerra Fria e o marco zero da
unificação da Alemanha em uma nação apenas.
O 25º
aniversário da queda do Muro de Berlim
Símbolo da Guerra Fria dividiu maior cidade alemã por
décadas.
Neste domingo (9-11-2014), derrubada completa 25 anos.
Foi em Leipzig que a manifestação de 70 mil pessoas no
dia 9 de Outubro de 1989 deixou o regime da RDA sem resposta. Ninguém imaginava
que um mês depois o muro caísse. Foi há 25 anos.
A polícia estava na rua, com escudos, bastões, e cães. O
jornal oficial do partido avisara que o exército estava de armas na mão, pronto
a esmagar qualquer ameaça à ordem socialista. Os hospitais de Leipzig tinham
recebido sangue extra. A imagem na cabeça das pessoas da cidade do Leste da
Alemanha era uma: Tiananmen.
O muro de Berlim foi o maior símbolo da divisão do mundo
entre bloco ocidental e oriental. O primeiro, liderado pelos Estados Unidos,
tinha o capitalismo como sistema econômico. Já o segundo, encabeçado pela
antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), era adepto do
socialismo.
O muro de Berlim tinha 156 km de extensão e cerca de
trezentas torres militares para observação do movimento nos arredores. Fora
isso, era protegido por cães policiais e cercas eletrificadas. De acordo com
alguns historiadores, o número estimado de pessoas que morreram tentando passar
de um lado para o outro é 80.
Da mesma forma
que foi o símbolo do começo da Guerra Fria, também foi ícone do seu fim. Nos
últimos anos da década de 80, a URSS entrou em colapso e diversas manifestações
começam a surgir nas duas partes da Alemanha, reivindicando a destruição do
muro de Berlim. Naquele mesmo ano, populares portando marretas e outras
ferramentas derrubaram o muro em um protesto televisionado para o mundo todo.
Com a queda da barreira geográfica, inicia-se um processo que termina na
reunificação da Alemanha no mês de outubro de 1990.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Cristiana Gomes
Emerson Santiago
Filipe Araújo
Coimbra, Novembro de 2014
Carminda Neves
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
OUTONO
O outono é a
estação do ano que sucede ao Verão e antecede o Inverno. É caracterizado por
queda na temperatura, e pelo amarelar das folhas das árvores, que indica a
passagem de estações (exceto nas regiões próximas ao equador).
O Outono do hemisfério norte é chamado de "Outono
boreal", e o do hemisfério sul é chamado de "Outono austral". O
"Outono boreal" tem início, no hemisfério norte, a 22 ou 23 de
Setembro e termina a 21 ou 22 de Dezembro. O "Outono austral" tem
início, no hemisfério sul, a 20 de Março e termina a 20 ou 21 de Junho.
Em 2014 o
Equinócio de Outono ocorre no dia 23 de Setembro às 03h29m. Este instante marca
o início do Outono no Hemisfério Norte. Esta estação prolonga-se por 89,815
dias até ao próximo Solstício que ocorre no dia 21 de Dezembro às 23h03m.
Equinócio: instante em que o Sol, no seu movimento anual
aparente, passa no equador celeste. A palavra de origem latina aequinoctium
agrega o nominativo aequus (igual) com o substantivo noctium, genitivo plural
de nox (noite). Assim significa “noite igual” (ao dia), pois nestas datas dia e
noite têm igual duração, tal é a ideia que permeia a sociedade.
“Vai-te ao longo da costa discorrendo,
e outra terra acharás de mais verdade,
lá quase junto donde o Sol ardendo
iguala o dia e noite em quantidade.
Ali tua frota alegre recebendo,
Um Rei, com muitas obras de amizade,
Gasalhado seguro te daria
E, pera a Índia, certa e sábia guia.”
Sussurrava o deus Mercúrio em sonhos a Vasco da Gama: que
fugisse de Mombaça e se acercasse de Melinde, mais norte e próxima do equador
onde o dia iguala a noite, guiando-o prá Índia. Lusíadas, canto II, estância
63.
Verdade que os dias vão ficar mais curtos, mas é altura
de reunir os amigos à volta de uma mesa de café, chá ou chocolate quente, de
ficar em casa a ler os calhamaços que não dão jeito para levar para a praia. É
tempo de tirar as lãs e casacos do armário e sair para a rua para aproveitar as
cores e a luz da estação, de apanhar cogumelos e marmelos e fazer compotas.
Para o escritor Valter Hugo Mãe, o outono é "o
regresso a casa, um certo recolhimento que favorece o tempo para voltar a
ler", ou ler com mais concentração, o que a praia nem sempre permite, diz.
"O outono inspira-me a voltar a pegar nos grandes livros", confessa.
FONTE: DN.
Wikipédia, a enciclopédia livre.
Observatório
Astronómico de Lisboa
COIMBRA, 7
DE NOVEMBRO DE 2014
CARMINDA
NEVES
sábado, 25 de outubro de 2014
O ASSASSINO DO GENERAL HUMBERTO DELGADoO
Eram quase três
da tarde em Badajoz naquele dia 13 de Fevereiro de 1965. O general Humberto
Delgado e a sua secretária, Arajaryr Campos, encontravam-se na estação de
comboios e ele, mesmo sem haver sol, encontrava-se de óculos escuros e com um
cachecol a tapar-lhe quase todo o rosto. A grande figura da oposição ao Estado
Novo estava prestes a partir para uma reunião que julgava determinante para
derrubar o regime. A ansiedade já devia ser grande quando viram aproximar-se o
homem que haviam conhecido apenas umas horas antes, "o Dr. Castro e Sousa" Ernesto Lopes Ramos (seu nome verdadeiro).
Cumprimentaram-se, saíram discretamente da plataforma e, fora do edifício,
encaminharam-se para o Renault Caravelle que o homem estacionara ali perto.
Delgado sentou-se ao lado do condutor. Atrás, a sua secretária brasileira
tentou atenuar o ambiente tenso, com conversa de circunstância.
A tensão era
facilmente explicável: dirigiam-se a uma reunião secreta com um grupo de
oficiais do Exercito Português que prometiam apoiar o General num golpe contra
o governo de António Oliveira Salazar. Pela estrada entre campos não passava
vivalma. Ao fim de alguns quilómetros a secretária anunciou o que todos
desejavam: avistara um carro verde! Um pouco atrás, fora da estrada.
Entusiasmado Delgado confirmou ter visto um Opel Record verde-escuro,
exatamente igual ao que o Dr. Castro e Sousa dissera pertencer ao coronel com
quem se iam encontrar. O Renault fez marcha atrás, parou, arrancou, saiu da
estrada e entrou por um caminho de terra batida. Adiante uns homens
esperavam-nos. Uma pequena clareira protegida por um cerro parecia o cenário
quase perfeito para um encontro secreto.
Logo que o
carro parou, Humberto Delgado saiu e dirigiu-se ao coronel. Este começou a avançar
em sua direção. Coxeava um pouco. Foi então que tudo se precipitou: Delgado viu
aproximar-se um homem enorme de gabardina branca. A aparência não permitia
dúvidas: não se tratava de um oficial do Exercito Português. Delgado interpelou
o desconhecido, mas já era demasiado tarde, a última imagem que terá visto foi
o olhar do homem que o assassinou a tiro, Casimiro Monteiro, chefe de brigada
da polícia política do regime, a PIDE. O Dr. Castro e Sousa, que o conduzira à
cilada, era o subinspetor Ernesto Lopes Ramos, que tivera o apoio do chefe de
brigada Agostinho Tienza.
A PIDE
eliminara o mais perigoso opositor ao regime. O “coronel que coxeava” (o
inspetor Rosa Casaco) ordenou logo que matassem a secretária que estava aos
gritos. O seu corpo foi atirado para junto do de Delgado, na mala do Opel
verde-escuro.
Casimiro
Monteiro entrou na História de Portugal deste medonho modo, com o crime de
Badajoz. Porém, a sua história começou a muitos milhares de quilómetros de distância
dali, a 28 de Dezembro de1920 em Goa India localidade onde nasceu.
SEMINARISTA,
DESERTORE LEGIONÁRIO
Casimiro Emérito Rosa Teles Jordão Monteiro era
descendente de Joaquim Teles Jordão, brigadeiro, que no século XIX fora um
absolutista fervoroso, lutou ao lado de D. Miguel na guerra civil contra os
liberais. Foi um dos governadores da, então, infame Torre de S. Julião da Barra,
que funcionava como prisão e palco de torturas. A sua reputação era tal que
quando foi preso e reconhecido em Cacilhas, o executaram imediatamente. O pai
de Casimiro, José Teles Jordão Monteiro, nasceu em Valpaços, seguiu a carreira
militar. (tradição familiar) Chegou a 2º sargento e foi destacado para a India,
onde casou com Maria Alves Castro, tiveram sete filhos sendo Casimiro o mais
novo.
Quando completou
a escola primária entro para o seminário, mas não tardou a aborrecer-se. Trocou
a batina pela farda e deu-se como voluntário para o Exercito Português, mas
também se cansou, a disciplina não era para ele. Desertou, escapou para a
India, então colónia Britânica.
De navio,
fugiu para Marrocos onde ironicamente volta a envergar uma farda, a da legião
Espanhola. Um porto de abrigo para fugitivos. Do Norte de África seguiu para a
Europa. Em 1938, a guerra civil Espanhola precisava de todos os homens válidos.
Quando nesse ano foi feita uma lista com os nomes de todos estrangeiros
presentes naquele corpo militar, o seu apareceu entre os 70 portugueses que
treinavam na bandeira de depósito. Um dia sem mais explicações enfiaram-nos num
camião e enviados para a linha da frente na sangrenta batalha do Ebro. O
assassino de Humberto Delgado tinha 18 anos.
RAPTOS E VIOLAÇÕES
Depois da
guerra ficou por Espanha, fixou residência em Barcelona. Em 1941, vários dos
seus amigos e camaradas alistarem-se na divisão azul (unidade falangista que
iria lutar contra a união soviética a favor de Hitler). Enquanto esses homens
juravam fidelidade a Hitler, Casimiro Monteiro envolveu-se em sarilhos. Preso,
foi conduzido ao posto de Vilar Formoso e entregue à PVDE em 1941 (antecessora
da PIDE). Ficou detido durante duas semanas. Libertado, viveu em Lisboa
discretamente para reaparecer em 1943 em Inglaterra a trabalhar como talhante,
tendo casado com Della King, com quem teve2 filhos. Tinha um part-time como informador da Scotlad
Yard, rapidamente passou de informador a cúmplice dos criminosos. Tornou-se
membro de uma quadrilha de assaltantes acabou por ser preso e condenado a 18
meses de prisão. A mulher abandonou-o e levou os filhos.
Em liberdade
levou uma vida errática, sem residência fixa e envolvido em negócios obscuros.
Assumiu uma identidade falsa (Emmer Ullah) supostamente filho de um
paquistanês. Em 1950 com a nova identidade obteve nacionalidade Britânica.
Tinha construído toda uma personagem, faltava-lhe uma companheira à altura,
encontrou-a na pessoa de Joan Raymond de nacionalidade inglesa. Tornaram-se
companheiro na farsa que Casimiro montara, iniciaram uma vida dupla em que
Emmer andava em viagens de negócios entre Londres e a India.
Em Outubro de 1952 foi implicado num assalto
a uma ourivesaria que correu mal um dos empregados foi assassinado. A polícia
tentou prende-lo, mas ele fugiu para Bombaim, com Joan e um filho que nascera
entretanto. Desta cidade foi para Goa.
No retorno à
terra natal, voltou à sua verdadeira identidade. Casimiro ressurgiu. A mulher
continuou a chamar-se Joan com o apelido Ullan, só que não foi adquirido pelo
casamento falso, mas herdado do pai, passou a ser uma inglesa nascida em
Calcutá.
O DEMÓNIO DE NARAKASSUR
Graças às suas
ligações na sociedade Goesa conseguiu evitar ser punido pela deserção do
Exercito, anos antes. Terá narrado a sua vida com feitos gloriosas durante a
guerra. Explorou uma concessão mineira com poucos lucros, até 1953.
Apresentou-se para lutar contra o movimento
goês que contestava a soberania portuguesa. Em 1954 foi integrado como agente
de 2ª classe na Polícia do Estado da India, onde seu irmão Aníbal já servia.
Dois anos mais tarde foi louvado pela sua atuação numa operação onde foram
capturadas armas roubadas e abortado um atentado bombista. Promovido a chefe de
brigada, em 1958 era considerado um dos melhores elementos da luta contra os
“terroristas”. Mas entre a população era conhecido por cometer toda a espécie
de crimes.
Em 1958 estava
no auge da sua carreira. Vivia com Joan e os dois filhos numa doa casa e com
uma fortuna que aumentava exponencialmente. Mas quando fez uma viagem a Lisboa
acompanhado pela família, foi denunciado, por alguém que o conhecia bem, porque
não só referiu, os seus crimes cometidos na India, como como também o seu
passado como assaltante no Reino Unido. Quando um dia passeava na Trafaria, foi
interpelado pela polícia, e preso. Entrou na cadeia do Aljube a 22 de Outubro
de 1958, quatro meses depois das eleições a que Delgado se candidatou.
Em Goa foi aberto um inquérito aos seus crimes, a pouco e
pouco, as vítimas foram-se apresentando, para relatar o que haviam sofrido. Em
poucos dias havia 72 testemunhas entre elas, havia subordinados que delataram a
atividade criminosa de Casimiro. Dizendo-se alvo de ameaças de morte e
acusando-o de se ter apropriado de contrabando apreendido. A lista de crimes de
que iria ser acusado incluía: homicídio,
extorsão, rapto, violação, sevicias, abuso de confiança, agressão, abuso de
autoridade, usurpação de terreno, contrabando, destruição de propriedade,
apreensões em proveito próprio de armas, munições e produtos de contrabando.
Foi também mencionada uma apreensão feita durante o carnaval de 1957, várias
barras de ouro foram confiscadas a três contrabandistas e entregues ao chefe de
brigada Monteiro que nunca as depositou.
Pior que tudo, a sua violência era
constante, justificando um elevado Nº de mortes sempre da mesma forma “o suspeito tentou fugir”. Concluído o
relatório foi enviado para o ministro do ultramar- com cópia para o próprio
Salazar- salientando que em Goa. “Falar-se em Casimiro Monteiro era o mesmo que
falar-se no diabo”
Na empresa Goesa
a sua queda foi saudada como o fim de um reinado de terror. Para evitar o seu
nome era mencionado como: o demónio de
Narakassur, que na mitologia hindu lança a morte sobre os humanos. Casimiro
enfrentava a perspetiva de passar muito tempo atrás das grades. Mas, contra
todas as expetativas, tirou partido da situação e aproveitou o tempo passado
entre os presos para os espiar e se tornar informador da polícia secreta.
DE PRESO A TERRORISTA. DE TERRORISTA A
PIDE
A 15 de Abril de 1959 foi transferido
para a Casa de Reclusão do Governo Militar de Lisboa. Solto pouco depois, ficou
a aguardar julgamento em liberdade, impedido de voltar a Goa. Mas a partir de
sua casa em Queluz, começou uma campanha para limpar o seu nome e denegrir os
seus acusadores do Estado da India. O seu irmão Aníbal também se envolveu nessa
campanha, mas acabou por ser preso e expulso da corporação por ter forjado
documentação falsa contra os seus superiores e o próprio governador- geral.
Apesar de
todas as provas contra Casimiro a PIDE começou a intervir no sentido de
desacreditar as acusações. Em dezembro de 1961 a Índia invadiu e anexou Goa,
Damão e Diu ao seu território, colocando em causa muitos dos elementos da
acusação, quando em Dezembro de 1963 foi presente ao tribunal de Santa Clara
foi absolvido.
Em 1964 tentou
ser reintegrado nos quadros da polícia portuguesa com o seu antigo posto,
obtendo apenas indiferença para o seu pedido. Mas pelas mesmas razões que lhe
recusavam um posto na polícia em Portugal, foi recrutado por Hermes de Oliveira e enviado numa
missão secreta a Goa Operação Mamasté. O
objetivo era lançar o caos no território e abalar a anexação indiana.
No antigo
território português, além de organizar atentados à bomba e espalhar o terror,
aproveitou para fazer alguns ajustes de contas. Mas viu-se forçado a fugir.
A PIDE tinha
tomado nota da sua ação na Índia: além de informador, Casimiro revelara
talentos especiais que podiam ser de utilidade. Não tinha a escolaridade mínima
nem o cadastro limpo que a PIDE exigia aos seus chefes de brigada, mas isso não
foi um entrave na hora de o admitir no seu antigo posto. Barbieri Cardoso, seu
padrinho na instrução, levou-o para a Divisão de Informação numa época em que a
PIDE andava entusiasmada com o golpe que preparava há dois anos.
A Operação
Outono estava para ser posta em prática e Casimiro Monteiro era o elemento que
faltava para completar a brigada especial, o assassino implacável que deveria
liquidar o General Humberto Delgado. Fê-lo com eficácia, mas ele e os cúmplices
revelaram-se amadores ao esconder os cadáveres e as provas do duplo homicídio.
O envolvimento da PIDE era evidente e a imprensa internacional apontou o dedo
ao Estado Novo. Para Casimiro Monteiro, nada disso já interessava: em Abril de
1965 foi colocado em Moçambique.
UM BULLDOG À SOLTA EM ÁFRICA
Em Fevereiro de 1968, Eduardo Mondlane dirigiu-se ao
escritório da Frelimo na capital da Tanzânia para recolher correspondência.
Saiu com uma encomenda especial, julgava ser um livro. Ao abrir o pacote
acionou uma bomba que lhe decepou as mãos e cortou o tronco em duas partes. O
governo português negou qualquer envolvimento no assassinato.
Mas não tardou
muito para surgirem as ligações entre o assassino de Mondlane e o homem que
matou Humberto Delgado, Casimiro Monteiro, para isso teve a colaboração de
Lázaro Nkavandame e Silvério Nungu, elementos da Frelimo com acesso ao
presidente do movimento.
Para Casimiro
Monteiro, Moçambique era o território perfeito, não tardou muito que ganhasse
entre as suas vítimas a mesma fama que tinha em Goa. Óscar Cardoso um agente
que com ele privou, testemunhou a sua eficiência, descrevendo-o como um” bulldog.
Dizia-se-lhe, faz e ele fazia,” resolvia as coisas à catanada.
Em 1970 foi
promovido a subinspetor, mas o 25 de Abril fez desabar o seu mundo. Fugiu para
a África do Sul, onde os anos finais da sua vida não terão sido fáceis. Óscar
Cardoso contou que, quando o encontrou em Richads Bay vivia do apoio da polícia
Sul-Africana. Morreu em Janeiro de 1993. Quase cego e na miséria.
ORIGEM: Revista
Sábado, 2 de Outubro de 2014. Por Ricardo Silva
Coimbra, Outubro de 2014
Carminda Neves
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
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