sábado, 12 de julho de 2014

LENDA DA GRUTA DE CAMÕES

Nos fins de 1557, segundo afirmam alguns historiadores, encontrava-se LUÍS de CAMÕES desempenhando em Macau o cargo de Provedor de Defuntos e Ausentes. Para ali fora o poeta enviado, numa espécie de desterro, pelo então governador da Índia, Francisco Barreto. Mas nem em Macau ele conseguiu ser feliz. Uma devassa movida, por interesses mesquinhos, condenou-o a deixar a terra que ele já amava PATANE (ali existe uma gruta onde se diz que Luís de Camões escreveu os LUSÍADAS) e a embarcar como prisioneiro na famosa Nau da Prata (fazia uma vez por ano a carreira entre Japão e China, levando prata e o que de melhor tinham  os mercadores .Por isso lhe chamavam a Nau da Prata). A História nada conta de positivo sobre essa aventura de Luís de Camões. Mas essa aventura entrou na tradição popular. E porque já faz parte dela, vamos evoca-la como uma das histórias lendárias mais belas de todos os tempos.

   A manhã estava triste, e sombria. Cheirava a lágrimas.
   Luís de Camões olhou uma vez mais a sua gruta. Estava tão triste como a manhã que o envolvia. Nesse olhar demorado ia toda a saudade de uma despedida. Ali havia sido o seu ninho. Ali havia conhecido sonhos e desesperos. Ali gritara aos quatro ventos toda a sua revolta e angústia pela incompreensão dos homens. Ali recebera, o eco dos seus próprios lamentos, o conforto para a sua luta interior. E chegara a ter paz! Paz de espírito e de corpo! Chegara a ser feliz! Nesse momento, porém, ele teria de abandonar a gruta e apresentar-se ao capitão da Nau da Prata.
    Respirou fundo, dentes serrados, lábios contraídos, garganta apertada por um nó doloroso. Depois, bruscamente, voltou as costas e dirigiu-se para o cais. No seu ar decidido disse ao capitão:
  Aqui me tendes, senhor! Como vedes, não faltei às vossas ordens… nem fugi!
  O homem sorriu:
   Eu sabia que podia confiar na palavra de um fidalgo.
    Que quereis então que eu faça?
   Entrai. As ordens que recebi foram para levar-vos preso, a ferros!
   A ferros? Porque me impõem tal castigo?
   Não sei, senhor. Foram ordens! No entanto … até chegarmos a terra ireis sem ferros. Sereis um prisioneiro em liberdade, a bordo do meu barco.
    Obrigado, senhor capitão!
  Levai a vossa bagagem e instalai-vos.
Luís de Camões curvou-se lentamente. Mas já o capitão indagava, curioso:
   Dizei-me: que rolo de papel é esse que segurais com tanto interesse?
   Com simplicidade, o poeta exclamou:
  É toda a minha fortuna!
  Uma herança?
  Quem sabe? Talvez seja a herança que deixarei a todos os portugueses!
  Não compreendo o que dizeis…
  Camões sorriu de modo enigmático. A sua expressão estranha não condizia com a sua voz clara e firme.
   Às vezes… nem eu me compreendo, mas, este rolo de papel conte versos.
   Versos?
   Sim, senhor capitão. Versos que tenho escrito com sangue e com febre. Versos nos quais pus toda a minha alma, toda a minha saudade de português injustamente ausente da sua terra! Versos que são os meus melhores companheiros de cativeiro. Versos que escrevi na minha gruta muito amada, durante as horas em que era perseguido, amaldiçoado, amesquinhado. Versos que hão de constituir um livro. E esse livro será o maior de todos os meus tesouros!
Tendes paciência para escrever um livro em verso?
  Acabei-o aqui, em Macau, enquanto esperava que a Nau da Prata me viesse buscar.
 O capitão meneou a cabeça, comentando:
   Que coisa bizarra!
  Depois debruçou-se sobre o manuscrito.
 E o que é isto? É o título?
 Sim: «OS LUSÍADAS» é o título do meu livro. Conta a história do nosso povo.
   Pois guardai-o com cautela, não vá o vosso tesouro perder-se! E a Nau pouco tardou em fazer-se ao largo.

  A viagem era longa.
  Vamos rapazes! Nada de demoras! Soltem todo o velame! Temos de ir a toda a força!
  Luís de Camões perguntou ao capitão:
  Posso ajudar nalguma coisa?
  Não: nós bastamo-nos. Ficai com os vossos versos!
 O mar batia na Nau da Prata desfazia-se em espuma. Camões foi até a amurada. A terra começou a ficar mais longe… cada vez mais longe! Distinguia-se ainda o recorte da gruta bizarra onde ele escrevera, realmente, a maior parte dos «LUSÍADAS». Mas em breve esse recorte não seria mais que fumo no horizonte. Camões falou para si próprio, como tantas vezes fazia:
    Gruta de Patane, minha bem-amada, nunca mais te verei! Mas também nunca mais te esquecerei! Gruta onde ficam as minhas lágrimas, onde escrevi os meus versos! Adeus terra de Macau! Adeus para sempre! E ficou de olhar perdido no horizonte. De súbito, uma voz suave, delicada, murmurou a seu lado:
   Senhor, estais assim tão triste por abalar?
  Camões voltou-se. Perto, uma figurinha débil de mulher olhava-o com ternura. Perguntou:
  Quem sois vós?
   Senhor, de que adianta o meu nome se nunca reparastes em mim quando habitáveis a gruta de Patane?
  Nunca reparei em vós? Mas é possível? Sois jovem e tão bela!
  Mas eu sou uma pobre nativa e vós um fidalgo português!
   Luís de Camões sorriu.
   Ouvi o que vos digo: decerto nunca vos dirigistes a mim como agora. Se o fizésseis, decerto teria reparado em vós.
  Não, nunca vos falei. Embora o desejasse, andáveis sempre bem acompanhado. Agora, porém, estais só e tristes.
  Como sabeis?
   Sei tudo quanto vos diz respeito!
   Não posso dizer mal do mundo quando criaturas como vós… me dão tanto animo para encarar a má sorte! Mas como voos chamais?
   Tin-Nam. Men. (a Dinamene) que deu origem a estes belos versos de Luís de Camões em os LUSÍADAS:

“Alma minha gentil, que te partiste
 Tão cedo desta vida descontente,
 Repousa lá no Céu eternamente,
 E viva eu cá na terra sempre triste

 Se lá no assento Etéreo, onde subiste,              .
 Memória desta vida se consente,
 Não te esqueças daquele amor ardente,
 Que já nos olhos meus tão puro viste.

 E se vires que pode merecer-te
 Algũa cousa a dor que me ficou
 Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

 Roga a Deus, que teus anos encurtou,
 Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
 Quão cedo de meus olhos te levou.”

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos" Canto X . 128
 
 Tin – Nam- Men? Mas é um nome que soa a poesia. Na língua da minha pátria esse nome significa: Porta da Terra do Sul – Porta do Paraíso!
  Senhor, como sabe dizer as coisas!
  O que eu digo depende de quem me inspira. Ides seguir viagem?
  Para vos servir…. Se assim o permitirdes.
  Mas… viestes por mim?
  Sim.

E conta a lenda que durante a viagem da Nau da Prata nasceu um romance de amor entre os dois. Dizia Luís de Camões:
  Tin-Nam-Men, minha suave inspiração! Vou chamar-te Dinamene e hei de consagrar-te os meus versos!
   Senhor, tive um sonho estranho! Via-vos lutando com as ondas do mar segurando esse rolo de papéis que dizeis ser o vosso tesouro…
  São os meus versos… Mas que sonhastes mais?
  Que vos salváveis… e salváveis os vossos versos. Eu, porem…
Tin- Nam- Men calou-se.um trovão forte fez-se ouvir. O vento soprou fortemente. Uma vaga subiu. Nuvens densas pareciam descer sobre a embarcação. E a tempestade surgiu.
A água começou a entrar! O barco está perdido! Temos terra à vista e perto! Quem souber nadar que se lance às ondas! Embarquem as mulheres num batel!
 A jovem beijou as mãos do poeta.
   Meu senhor… adeus
   Não, não digas adeus! Vais no batel e havemos de chegar a terra!
E olhando a jovem disse:
  Encontrar-nos-emos ali, na margem!
   Ou em espírito… na gruta de Patane!
   Não! Fales assim… não me tires a coragem!
  Adeus, meu senhor!
   Adeus!
Luís de Camões deitou-se ao mar. as ondas alterosas subiam a disputar-lhe o manuscrito. De braço no ar, segurando os «LUSÍADAS», Luís de Camões chegou a terra, cansado, abatido, atormentado. Mas o barco onde vinha Tin-Nam-Men não chegou a terra. As ondas tragaram-na para não mais restituírem o seu lindo corpo.
     
FONTE: LENDAS DE PORTUGAL; Gentil Marques: volume V Círculo de leitores

Coimbra, Julho de 2014
Carminda Neves

Para melhor recordar ouçamos alma minha gentil cantada por: de Amália Rodrigues

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quarta-feira, 25 de junho de 2014

LENDA DA PRINCESA PERALTA


Em tempo que a História não conta, reinava na cidade de Colimbriga ou Conimbriga, perto de vila de Condeixa um rei chamado Arunce, os seus domínios eram vastos, ultrapassavam o castelo de Arunce (hoje Lousã). Tinha Arunce uma filha muito bela chamada Peralta. Vários cavaleiros de casa de Arunce interessavam-se pela princesa, mas esta olhava das torres do seu castelo o campo vasto de belos horizontes e ficava a cismar. Ela via e revia a figura esbelta de um cavaleiro alto, de peito largo, atlético, olhos brilhantes, olhar franco, voz profunda e meiga. Suspirava a princesa. Tudo isso, afinal, não passava de um sonho.
   Ora, certa vez em que a princesa na sua doce meditação, viu chegar, inesperadamente, um exército inimigo. A jovem ficou estática. Os guerreiros aproximavam-se com rapidez. O alarme foi dado pelos vigias.
    Procuraram a princesa. Ela continuava imóvel, olhando o comandante inimigo que se destacava à frente das suas tropas. Era um cavaleiro jovem, belo, decidido. O rei gritou-lhe:
     Minha filha! O inimigo desembarcou de numerosas naus ancoradas no porto e correu para aqui, onde nos está cercando!
     A princesa tinha o semblante triste, a voz dolorida.
    Nunca odiei tanto a guerra como neste momento!
  O rei tornou:
  Coragem! Eles começaram a atacar e já temos feridos e mortos.
Ela apenas respondeu com um suspiro. O rei irritou-se.
  Que serenidade a vossa minha filha! Quero acreditar que estais inconsciente! Padeceis de um mal que vos põe abstrata. Mal de que as vossas aias falam e de que a corte começou já a murmurar. Porém, este momento é grave. Eu sou o rei e vosso pai! Tendes de ouvir-me. O castelo que mandei construir na floresta (Lousã) e achastes medonho vai agora servir-nos!
  Sempre serena, a princesa ripostou:
   Ficaremos enterrados vivos! O castelo, situado num local distante da serra, é como se fosse uma ilha!
  Mas difícil de ser descoberto, e mais difícil ainda de ser conquistado.
   Pensais então que poderemos sair daqui?
   Tentaremos! Preparai as vossas coisas mais necessárias ou valiosas.
Logo que a noite chegue sairemos pela porta secreta. O vosso cavalo branco esperar-vos-á no átrio norte.
Nos seus aposentos, com as suas aias, a princesa esperava que viesse a ordem de partida. Falava baixo, compassadamente, sem medo.
 Nesse momento um homem estranho surgiu na entrada dos aposentos, avançou em direção à princesa.
   Senhor, que ousadia a vossa!
Ele teve um leve sorriso e declarou:
    Dizei às vossas damas, que venho como libertador e não como inimigo!
Vós o dizeis… Contudo, bem vos vi à frente do exército que invade os nossos domínios!
Serenamente, o cavaleiro replicou:
   Por comandar um dos troços desse exército pude chegar até aqui.
Também vos divisei numa janela da torre. E a curiosidade de vos ver de perto levou-me a cometer esta leviandade. Estou neste momento em perigo de vida!
  Como chegastes a este recanto do castelo?
Pondo fora de combate quantos, encontrei pelo caminho.
   Pois sabei que espero, o rei meu pai. Ele poderá entrar de um momento para o outro. Se o fizer. Um dos dois morrerá. E não desejo que seja ele!
  Juro-vos que a vosso pai nada acontecerá se isso depender de mim!
  Que quereis então?
  Avisar-vos que, antes do nascer do sol, o castelo será nosso. E não sei o que poderão fazer os outros chefes!
  Achais que isso está para breve?
  Dentro de meia hora faremos a ultima avançada. Tendes pois, de fugir!
  Calculastes, cavaleiro, que tentaríamos fugir e acertastes. Quereis, acaso, impedir a nossa viagem, mascarando-vos de protetor?
   Pela minha espada vos juro que vos quero salvar!
   E porquê, cavaleiro?
   Senhora, já perguntastes à rosa porque tem perfume? Quando vos vir a salvo e se ainda for essa a vossa vontade, vos direi porque arrisquei a vida para vos salvar!
   Juro-vos que pagarei com a vida este meu ato! Deixar-me-ei matar por vosso pai ou por algum dos vossos. Ficará assim atenuada a falta que cometo para com os meus homens.
    A vossa atitude é tão estranha…
    O dia virá em que podereis compreender-me.
    Como vos chamais?
    Laurus.
A princesa olhou-o profundamente e declarou:
    Laurus, não vos esquecerei. Confio em vós.
Quando o rei Arunce entrou e se viu em face de um desconhecido embrulhado num manto, ficou estupefacto. A princesa explicou-lhe a situação. O rei mostrou-se altivo:
    Retirai-vos! A vossa companhia não nos agrada!
Laurus respondeu com certa ironia:
   Se não vos avisasse, saberíeis que esta fuga era impossível
  O rei voltou a gritar:
    Retirai-vos já, ou tomar-vos-ei como inimigo que sois!
Sem dar tempo a qualquer luta, aprincesa interpôs-se entre eles.
    Meu pai basta de luta! Partamos, pois já oiço vozes bem perto!
   Laurus explicou:
   Foi dada a ordem de atacar. Não tardam aí os meus homens. Fujam! Eu os deterei!
  Todavia, o rei Arunce ordenou aos seus guardas. Isolem este homem enquanto nos retiramos! Não confio no inimigo.
  Envergonhada a princesa censurou:
  Meu pai, devemos-lhe a vida! Sei que não mente!
Mas o rei, ordenou:
   Vamos o tempo urge!
  A marcha foi penosa. A princesa voltara ao seu alheamento costumado.
  Passaram a ribeira. As suas vidas estavam a salvo, pelo menos nos dias mais próximos. Declarou o rei:
  Neste castelo isolado encontraremos abrigo seguro enquanto não arranjarmos reforços. A esta ribeira darei o meu nome. À terra que circunda este castelo darei o nome da minha filha Peralta.
   Dissestes à vossa guarda que viesse aqui procurar-nos?
   Disse.
   Tardam!

Pouco mais de um dia tinha passado quando uma das aias disse à princesa:
  Chegou a guarda real!
  Só?
  Sim. Senhora.
  Há feridos?
  Um apenas, e ligeiramente.
  O castelo que deixámos?
  Foi ocupado pelo inimigo.
  E o cavaleiro que nos salvou?
  Desse nada sei, Senhora!
   Pois ide dizer a meu pai que desejo falar-lhe. Mal avistou o rei, perguntou:
  Senhor, que novas nos dais do cavaleiro que nos ajudou na retirada?
  Acabo de saber pelos meus guardas que se deixou matar por nós. Dir-se-ia que não sabia combater!
  A princesa fez-se pálida. As lágrimas rolaram dos seus olhos. Cambaleou.
Aflito Arunce, perguntou:
    Filha! Porque vos desgostais tanto? Mal o conhecemos! A princesa murmurou:
   Morreu o meu cavaleiro!
   Entreolharam-se a aia e os dois guardas, sem crer no que ouviram; o chefe inimigo era o cavaleiro da princesa! Atormentado o rei deixou a filha chorar. Quando ela se levantou para se retirar perguntou com brandura:
   Dizei-me porque chorais assim um desconhecido?
   Achais que um desconhecido seria capaz de dar a vida por nós?
   Pois não era um desconhecido? Quem era então? Donde veio? Como o conhecíeis?
  O olhar da princesa, fitou o infinito e murmurou:
   Desde que me lembro que o via… hora a hora… a caminhar para mim… tal como apareceu, na verdade. Belo, valente! Deu a vida por nós… e eu daria a vida por ele… contudo nunca trocamos uma palavra de amor… nunca! Nos meus devaneios surgia… e fugia depois como fumo! Compreendo agora o significado. Nunca o teria perto de mim… só para mim!
   Filha delirais!
   Achais assim… porque sois incapaz de compreender-me! Laurus foi para vós apenas o inimigo. Para mim… continuará a ser o meu cavaleiro, o meu único amor!
   Não podereis compreender. Mesmo sem nos encontrarmos, há muito que nos pertencíamos! E sabíamos disso… sabíamos!... Por esse motivo, agora que ele morreu para o mundo, quero fazer-vos um pedido.
   É vosso desejo dar a esta ribeira o nome de Arunce em homenagem ao rei que habita este castelo. Pois peço-vos, Senhor, que se dê a esta terra, não o meu nome, mas o daquele que tornou possível a nossa estada neste lugar: o nome do meu cavaleiro!
  O rei não cabia em si de espanto.
  Pois quereis que se dê a esta terra…
A princesa não o deixou terminar.
Perdoai Senhor! Desejo que esta terra seja a terra de Laurus.
   Pois seja a terra de Laurus!
   A princesa sorriu pela homenagem prestada ao seu cavaleiro. Depois saiu silenciosa, sem pressa de chegar, como se a vida já não contasse para ela.

Arunce foi contemporâneo de Sertório que tinha a sua corte em Conimbriga. A ribeira que primeiramente tomou o nome de Arunce, chama-se agora Arouce. Com este nome existe, ainda uma povoação. Ou melhor essa povoação chama-se agora foz de Arouce. Pois é lá que desagua no rio Ceira o hoje rio Arouce.
     A História não fala de Laurus mas de um Lausus, que mais tarde deu o nome à vila de Lousana, e do qual também deriva, provavelmente, o nome da bonita vila da Lousã.
   Condeixa tem foral desde o reinado de D. Manuel I a 3 de Junho de 1514.
 Povoação muito antiga, na área da sua freguesia existem as ruínas da célebre cidade romana de Conimbriga. Antigamente Condeixa era porto de mar.


FONTE: Lendas de Portugal; Gentil Marques; volume V 1997
Junho de 2014
Carminda Neves

   

sexta-feira, 20 de junho de 2014

LENDA DO FREXO DE ESPADA À CINTA


Conta-se, que em tempos já distantes, nas eternas questiúnculas com seu filho o príncipe D. Afonso, EL- DE Portugal D. Dinis chegou um dia aquelas terras, então ainda praticamente desertas, que hoje fazem parte do distrito de Bragança, quase na raia de Espanha.
    Os correligionários do príncipe D. Afonso tinham cometido tropelias graves e D. Dinis viu-se obrigado a correr o Norte do reino, com os seus melhores cavaleiros, para castigar prevaricadores e salvar os inocentes.
   Por mais de uma vez a sua própria espada teve de salpicar-se de sangue e o rei de Portugal, gritava furioso e agastado:
    Filho indigno que não sabe respeitar o seu pai que tanto o ama!... Que deseja ele mais? Não lhe tenho dado honrarias e poderes? Umas vezes, por minha espontânea vontade… outras vezes, a pedido da Rainha? Ingrato D. Afonso antes eu não fosse vosso pai, e D. Diniz rematava febrilmente:
      Lá porque amo também outro filho, D. Afonso Sanches –e esse, sim, é bom e sabe respeitar-me – pensa o ingrato que há-de rebelar o reino contra mim e contra seu irmão.
    Depois, num gesto sem réplica, ordenava:
     Vamos! Acompanhai-me.
   Assim decorria a jornada por terras do Norte, entre rancores perseguições, inquietudes de alma e cansaços do corpo. Por tudo isso, talvez, ao passar junto de um grande freixo, plantado à beira do caminho e derramando em seu redor uma sombra de encantar, el- rei D. Dinis, segundo narra a velha lenda, sentiu-se desejoso de um merecido repouso.
    E não resistiu, a sua voz ergueu-se sobre os que o acompanhavam:
   Ide, cavaleiros… ide e montai mas além o nosso acampamento… Depois irei ao vosso encontro, pois agora quero ficar alguns momentos a descansar à sombra deste magnífico freixo.
Voltou o olhar em seu redor.
  E como é refrescante esta sombra, meu Deus!
   Sempre sorrindo, el-rei de Portugal confidenciava a si mesmo:
 Nunca me apeteceu tanto adormecer um pouco --- Libertar os meus pensamentos de inquietações… Lavar a alma neste sossego que me envolve…
  E assim falando, tal como conta a lenda, D. Dinis desembaraçou-se da sua pesada espada e do cinto que a sustentava, prendendo-o ao próprio tronco do freixo--- Encostou a cabeça ao freixo… e adormeceu.

  Foi então que tudo se passou conforme a lenda revela e tem passado de geração em geração…
   Sonhando el-rei viu de repente a aparição fantasmagórica de um velho de barbas brancas, que tinha à cintura a sua própria espada.
   Surpreendido, desconfiado, inquieto, o rei de Portugal perguntou:
   Mas… quem sois vós, ancião? Que desejais de mim?
Em voz irreal, que mais parecia eco de outra voz distante, o velho respondeu apenas:
    Sou o espírito vivo deste freixo, ao qual tu te encostaste… Aqui estou encantado para sempre, desde que morri… Tu hoje, porém, quebraste o encantamento e por isso aqui me vês…
  Novo espanto nasceu no rosto de D. Dinis:
   Quebrei-vos o encantamento? Mas… como, se nada fiz? Explicai-vos, por favor, bom velho!
Pois é bem fácil de explicar. Sempre que um rei de Portugal pendure a sua espada no meu tronco… eu poderei viver de novo durante alguns momentos!
   Houve um silêncio. Pequeno. Frágil. E el-rei D. Dinis insistiu:
   Mas… afinal quem sois? Ainda não me dissestes o vosso nome…
Sou um velho rei visigodo… Sim, rei como tu, Dinis! E como tu, também fui valente e temido. Conquistei terras e dominei povos… Um dia, porém, adormeci à sombra deste mesmo freixo a que tu te encostaste…E os inimigos surpreenderam-me assim… e mataram-me!
 Perante a reacção de D. Dinis. A voz numa risada disse:
   Mas tu não tenhas medo Dinis! A ti não te farão a mesma coisa… Estamos aqui apenas os dois… E eu vim para te aconselhar…
   Que sabeis vós da minha vida, bom velho rei?
   Sei tudo! Tudo, compreendes? Por exemplo eu sei que lá no teu intimo, tu queres fazer as pazes com teu filho Afonso.
   Descoberto no seu segredo, o rei de Portugal desabafou:
  Sim, mas ele é um ingrato!
Acalma-te! Vou ensinar-te como deves proceder… queres ajudar a tua felicidade.
   Nem sei como agradecer-vos… Não mais esquecerei este encontro!
   Escuta primeiramente um aviso que te quero dar: Tens tratado muito mal tua esposa, a Rainha Isabel!
D. Dinis reagiu:
Ela está sempre ao lado do filho… contra mim!
Enganas-te… Ela é mãe. Mãe verdadeira. Mãe amantíssima. E procede como tal!
Também a defendeis? Também sois contra mim? Porquê? Porque querem todos que eu seja afinal o culpado… se eu procedo conforme a justiça e a razão?
  Sim… em grande parte tu és o culpado de tudo, Dinis! Se desses mais ouvidos à Rainha tua esposa… se mais te guiasse pelos seus conselhos… talvez houvesse mais compreensão e menos guerra…
  Está bem! Passarei a dar mais atenção ao que diz a Rainha… Mas respondei-me velho rei: como hei-de conseguir a paz com meu filho Afonso? O vulto de grandes barbas brancas inclinou-se sobre ele e disse devagarinho:
   Escuta Dinis … escuta porque é segredo…
E conta a lenda que D. Dinis, logo de início, ao ouvir a primeira parte do segredo, ficou estarrecido e entusiasmado:
  Oh, mas é prodigioso o que acabais de dizer! E eu que nunca pensara em tal… Obrigado velho rei do freixo! Vou pôr-me a caminho e fazer tudo quanto dissestes… D. Dinis de tão entusiasmado nem quis ouvir o resto do segredo. Não ligou aquela voz que lhe dizia:
  Espera Dinis! Falta ensinar-te o resto--- senão tudo volta ao mesmo… Espera!

Mas era tarde, D. Dinis acordara! E viu-se de novo sozinho, junto ao grande freixo… O velho desaparecera por completo.
    Numa preocupação salpicada de rugas, D. Dinis olhou lentamente a árvore a cuja sombra se acolhera.
 Meu Deus, é extraordinário como o velho rei visigodo se assemelhava a este freixo… Parecia até o próprio freixo de espada à cinta!
   Desde então, el-rei D. Dinis não se cansou de contar às pessoas intimas o estranho sonho que tivera.
   E aos poucos, de boca em boca, de terra em terra, pelo País fora, foi-se espalhando o caso espantoso do velho rei do freixo de espada à cinta – até que, logicamente pela tradição do povo, esse local ficou a chamar-se para sempre FREIXO DE ESPADA À CINTA

Tudo se passou como na profecia do sonho. D. Dinis conseguiu uma paz pouco duradoira com D. Afonso IV. E isso porque D. Dinis não ouvira o resto dos conselhos do espírito encantado do Freixo de Espada à Cinta. Que não voltou a desencantar-se, porque nenhum outro rei de Portugal voltou a pendurar a sua espada no grande freixo plantado à beira do caminho.

FONTE: LENDAS DE PORTUGAL; Gentil Marques- Circulo de Leitores
Volume I- 1997



   


VIAGENS

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sábado, 17 de maio de 2014

O RIO MONDEGO

       

É o quinto maior rio português e o primeiro de todos os que têm o seu curso inteiramente em Portugal. Nasce na Serra da Estrela e tem a sua foz no Oceano Atlântico, junto à cidade da Figueira da Foz. É o rio que banha a cidade de Coimbra.
                                Aspetos físicos e naturais
Tem um comprimento total de 258 quilómetros. A sua nascente situa-se na Serra da Estrela, no sítio de Corgo das Mós (ou Mondeguinho), freguesia de Mangualde da Serra, concelho de Gouveia, a uma altitude de cerca de 1525 metros. No seu percurso inicial, atravessa a Serra da Estrela, de sudoeste para nordeste, nos concelhos de Gouveia e Guarda. A poucos quilómetros desta cidade, junto à povoação de Vila Cortês do Mondego, atinge uma altitude inferior a 450 metros. Nesse ponto, inflete o seu curso, primeiro para noroeste e depois, já no concelho de Celorico da Beira, para sudoeste.
Aqui se inicia o seu curso médio, ao longo do planalto beirão, cortando rochas graníticas e formações metamórficas. Depois de atravessar o concelho de Fornos de Algodres, o rio Mondego serve de fronteira entre os distritos de Viseu, a norte, e da Guarda e de Coimbra, a sul. Assim, delimita, na margem norte, os concelhos de Mangualde, Seia, Nelas, Carregal do Sal, Santa Comba Dão e Mortágua, enquanto que na margem sul serve de limite aos concelhos de Gouveia, Oliveira do Hospital, Tábua, Penacova e Vila Nova de Poiares.
Entre Penacova e Coimbra, o rio percorre um apertado vale, num trajeto caracterizado por numerosos meandros encaixados. Depois de se libertar das formações xistosas e quartzíticas, e já nas imediações da cidade Coimbra, o rio inaugura o seu curso inferior, constituído pelos últimos quarenta quilómetros do seu trajeto e cumprindo um desnível de apenas 40 metros de altitude. Nesta última etapa, percorre uma vasta planície aluvial, cortando os concelhos de Coimbra, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz, onde desagua, no Oceano Atlântico. Junto à sua foz forma-se um estuário com cerca de 25 km de comprimento e 3,5 km² de área2 . Nos últimos 7,5 km do seu troço desdobra-se em dois braços (norte e sul), que voltam a unir-se junto à foz, formando entre si a pequena ilha da Murraceira
                                        Origem do nome
Os romanos chamavam Munda ao rio Mondego. Munda significa transparência, claridade e pureza. Nesses tempos as suas águas eram assim. Ao longo da Idade Média o rio continuou a chamar-se Munda.
                     Aproveitamento hidroeléctrico e hidroagrícola
A bacia hidrográfica do Mondego apresenta uma enorme diversificação de utilizações da água, muito importantes para o desenvolvimento económico da região, nomeadamente a agricultura, a indústria e fábricas de polpa de celulose, a produção de energia elétrica e o abastecimento público de água em toda a região hidrográfica. Desta multiplicidade de utilizadores, a necessidade de implementação de um modelo de gestão integrada dos recursos hídricos da bacia, ao qual foi definido de um quadro jurídico e institucional para a criação de uma entidade gestora do aproveitamento hidráulico do Mondego (AHM). Por tudo isto, a bacia hidrográfica do rio Mondego é uma das bacias portuguesas com maior utilização dos recursos hídricos, sobretudo nas componentes hidroeléctrico e agrícola, onde se destaca a barragem da Aguieira, barragem da Raiva e barragem de Fronhas com uma potência instalada de 110 MW e uma produtibilidade média anual de 360 GWh, que regulariza volumes de água para abastecimento público de alguns concelhos do Baixo Mondego e para a rega do Aproveitamento Hidroagrícola do Baixo Mondego. As outras importantes são a barragem do Caldeirão e o Açude de Coimbra.
                                        Atravessamento
O rio Mondego é atravessado por numerosas pontes rodoviárias e ferroviárias. Pela sua dimensão e importância, destacam-se a ponte de Caldas de Felgueira (entre os concelhos de Nelas e de Oliveira do Hospital), a ponte de Penacova, as pontes da Portela, a Ponte Rainha Santa Isabel, a Ponte Pedro e Inês, a Ponte de Santa Clara e a Ponte do Açude (todas em Coimbra), a ponte de Montemor-o-Velho, pela A17 e a ponte Edgar Cardoso na Figueira da Foz.
                                                      Desporto
Nas águas do rio é comum organizar-se provas de várias modalidades desportivas aquáticas, tais como vela e motonáutica (no estuário, junto à Figueira da Foz) e ainda de remo e de canoagem. Existe o centro desportivo de alto rendimento em Montemor-o-Velho com centro náutico, pistas de atletismo, e Pousada da Juventude. A sua utilização tem- se revelado útil para várias modalidades olímpicas como: remo, canoagem, natação de águas abertas e o triatlo, e onde já decorreram várias provas internacionais. A organização espacial do plano de água previu uma ilha com uma barreira vegetal para proteger dos ventos predominantes de nordeste, canais de acesso para facilitar as provas de 500, 1000 e 2000 metros. Outro melhoramento para a qualidade da água do local é a adução a montante com entrada direta a partir do leito central do Mondego ou a partir da vala do regadio na bombagem de Formoselha
                                                       Literatura
O Mondego é certamente o rio português mais cantado por poetas desde tempos imemoriais.
As primeiras referências chegadas até à atualidade, remontam ao início do século XVI com os poetas do Cancioneiro Geral. Com efeito, é com Bernardim Ribeiro que é possível identificar, em primeiro lugar, alusões implícitas ao Mondego, na sua obra Menina e Moça
Não é certo que Luís de Camões tenha estudado em Coimbra, mas parece irrefutável que terá vivido na cidade nos tempos da sua juventude. Essa passagem ficou gravada na sua obra, tal como o atesta o soneto:
“Doces e claras águas do Mondego,
Doce repouso de minha lembrança
Onde a comprida e pérfida esperança
Longo tempo após si me trouxe cego.
(…)
Mas a alma, que de cá vos acompanha,
Nas asas do ligeiro pensamento
Pera vós, águas, voa, e em vós se banha.”
                  Luís de Camões
Século XX, Miguel Torga descrevia o calmo deslizar do rio na planície:
“Surdo murmúrio do rio
A deslizar, pausado, na planura.
Mensageiro moroso
De um recado cumprido,
Di-lo sem pressa ao alarmado ouvido”
                                                 
                                                            Miguel Torga
                                                 
                                                             Música

A canção tradicional de Coimbra – o fado de Coimbra – encontrou sempre nos versos dos grandes poetas que viveram ou que passaram por esta cidade, inspiração para os musicar e interpretar. Assim, não admira que muitos dos mais conhecidos fados de Coimbra aludam ao Mondego, às suas paisagens e às suas musas inspiradoras. A referência ao nome do rio está presente na mais conhecida balada coimbrã, escrita por António de Sousa (1898-1981) e gravada em 1929, por Edmundo Bettencourt17 e recriada, anos mais tarde, por José Afonso:

Oh Coimbra do Mondego
E dos amores que eu lá tive
Quem te não viu anda cego
Quem te não ama não vive

                       José Afonso

Também o Vira de Coimbra inclui uma quadra de António Nobre que faz uma referência implícita ao carácter estival que o rio apresentava no século XIX:
“Fui encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei
Mondego qu’é da tua água
Qu’é dos prantos que chorei?”
 António Nobre

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Maio de 2014

Carminda Neves



        Documentário "Mondego"

Este filme é o seu projecto final do mestrado em Wildlife Documentary Production da Universidade de Salford, onde teve aulas com Sir David Attenborough, Paul Reddish, Niel Lucas e outros nomes da BBC Natural History Unit, Bristol.
O filme foi classificado com uma distinção e o próximo passo é concorrer a festivais desta especialidade na Europa.
Agradecemos que vejam e partilhem o link do filme pois ele precisa de divulgação.


http://vimeo.com/danielpinheiro/mondego                                        



sexta-feira, 16 de maio de 2014

sexta-feira, 2 de maio de 2014

VIA FÉRREA DA LOUSÃ. EXEMPLO DA MISÉRIA EM QUE SE ENCONTRA PORTUGAL

via férrea em Coimbra
  

Aquilo que já foi uma via férrea com muito movimento. Hoje votada ao abandono, atirada aos corvos. Algumas partes com carris, outras sem eles.Rico legado para  alguém que quer ser rico à força, e, os vende por aí no ferro velho,sem que haja uma autoridade vigilante que o impeça.   A desgraça de populações que ficaram isoladas, muito mais do que já se encontravam. Sem transportes para os seus locais de trabalho, consultas médicas, mercado dos seus produtos agrícolas etc: Tudo  provocado por incompetências indescritíveis. Um governo a dar luz branca a tudo isto. Será que a LOUSÃ que tinha comboio desde 1910, vai retroceder 100  anos na História? Somos de facto um povo de brandos costumes.

Maio de 2014
Carminda Neves
via férrea Lousã



sexta-feira, 11 de abril de 2014

HOMICÍDIOS NO BRASIL REPRESENTAM 10% DO TOTALMUNDIAL

O Brasil registou 50.108 homicídios em 2012, o equivalente a 10% do total mundial no mesmo período, revela um relatório da ONU divulgado esta quinta-feira.
Manifestação dos movimentos sociais em frente ao Fórum Cível de Marabá, no Pará, contra os assassinatos. Foto: Mídia Ninja (CC BY-SA)
O estudo observa que o continente americano apresenta historicamente índices de violência entre cinco a oito vezes mais altos do que países dos continentes europeu e asiático.
O relatório, de Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), contabiliza 437 mil pessoas assassinadas em 2012 em todo o mundo, uma média mundial de 6,2 homicídios por 100 mil habitantes.
No Brasil, a taxa de homicídios ficou em 25,2 pessoas por 100 mil habitantes, o mesmo grupo de países africanos como a Nigéria e o Congo.

MULHERES NA HISTÓRIA

Num mundo que nem sempre valorizou a contribuição feminina, algumas mulheres assinalaram a diferença. Enfrentaram preconceitos, combateram a descriminação.                                            
       Da política à ciência, passando pelas artes, elas andam a mudar o mundo desde o início dos tempos. O reconhecimento porém só começa a emergir no século XIX, com a primeira vaga da emancipação da mulher.
                    PELO DIREITO DE VOTO
Kate Sheppard
Uma das maiores batalhas femininas foi travada pelo direito de voto que, em todo o mundo, gerou vários movimentos. U m dos primeiros foi liderado pela britânica Kate Sheppard (1847-1934) e levou a que, em 1893, a Nova Zelândia se tornasse o primeiro país a garantir o sufrágio universal.

      Em Portugal: A primeira lei eleitoral da República Portuguesa reconhecia o direito de votar aos «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família».
Carolina Beatriz Ângela
Carolina Beatriz Ângelo (1878-1911) viu nesta redação da lei a oportunidade de a subverter a seu favor, dado que, gramaticalmente, o plural masculino das palavras inclui o masculino e o feminino. Viúva e com uma filha menor a cargo, com mais de 21 anos e instruída, dirigiu, ao presidente da comissão recenseadora do 2º bairro de Lisboa um requerimento no sentido de o seu nome «ser incluído no novo recenseamento eleitoral a que tem de proceder-se». A pretensão foi indeferida pela comissão recenseadora, o que a levou a apresentar recurso em tribunal, argumentando que a lei não excluía expressamente as mulheres. A 28 de Abril de 1911, o juiz João Baptista de Castro proferia a sentença que ficaria para a História: «Excluir a mulher (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo partido republicano. (…) Onde a lei não distingue, não pode o julgador distinguir (…) e mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral. Assim, a 28 de Maio de 1911, nas eleições para a Assembleia Constituinte, Carolina Beatriz Ângelo tornou-se a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto. Não sem um pequeno incidente, que a mesma relatou ao jornal A Capital: «No final da primeira chamada, o presidente da assembleia de voto, Sr. Constâncio de Oliveira, consultou a mesa sobre se deveria ou não aceitar o meu voto, consulta na verdade extravagante, porquanto, estando recenseada em virtude duma sentença judicial, a mesma não tinha competência para se intrometer no assunto».

      O seu gesto teria como consequência imediata um retrocesso na lei: o Código Eleitoral de 1913 determinava que «são eleitores de cargos legislativos os cidadãos portugueses do sexo masculino maiores de 21 anos ou que completem essa idade até ao termo das operações de recenseamento, que estejam no pleno gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português, residam no território da República Portuguesa». Morreu nesse mesmo ano a 3 de outubro de problemas cardíacos com apenas 33 anos.
Susan B. Anthony (1820-1906) começou por destacar-se no movimento pelos direitos das mulheres nos E.U.A.. Criança precoce, começou a ler e a escrever aos 3 anos. Aos 52 foi presa por se ter atrevido a votar nas eleições presidenciais norte - americanas. Acabou por se tornar na Iª mulher a merecer um retrato numa moeda em circulação nos E.U.A. Infelizmente, não viveu para assistir à vitória. O direito de voto feminino nos E.U.A. foi consagrado em 1920. No mesmo período, na Europa, ficaram conhecidos em todo o mundo os movimentos das suffragettes. Entre estas mulheres de coragem, destacou-se a inglesa Emmeline Pankhurst (1858 -1928). Dedicou-se à defesa dos diretos femininos, mas não beneficiou do resultado da sua árdua batalha. Morreu três semanas antes da aprovação da lei que concedeu o voto às mulheres com idade superior a 21 anos no Reino Unido (1928)

             PELA CIÊNCIA     

Marie Curie (1867-1934) desenvolveu investigações que moldaram o mundo para como hoje o conhecemos.
Marie Curie

Nasceu na Polónia, Maria Salomea Skfodowska, naturalizou-se francesa e Curie por casamento. Foi a Iª mulher a receber um prémio Nobel e foi até hoje, a única pessoa a ganhá-lo em duas categorias: Física (1903) pela investigação revolucionária sobre radioatividade, e Química (1911) pela descoberta dos elementos rádio e polónio (este ultimo, batizou-o honrando p país natal)
Aquela que foi a Iª professora na Universidade de Paris, comprometeu-se cedo com a ciência e por ela deu, literalmente, a vida. Em 1934, cedeu a uma anemia aplástica provocada pela exposição à radiação e tornou-se a Iª mulher a ser sepultada no Panteão Nacional de França.
   
Amalie Noether (1882 – 1935), a alemã que Albert Einstein considerou “a mulher mais importante na história da Matemática”. Educada para ser pianista e professora de línguas, ficará na História pelas suas contribuições no campo da Física teórica e álgebra abstrata.
        
             PELA IGUALDADE
Helen Keller

Helen keller (1880 – 1968). Norte-americana ficou cega e surda aos 19 meses, o que não a impediu de se tornar uma célebre escritora e filósofa. Foi a Iª mulher a obter um bacharelato nas suas condições, provando que as carências sensoriais não impedem o sucesso. Ficou conhecida por devotar a sua vida aos outros. Legou ao mundo o centro Helen Keller, ma das principais organizações sem fins lucrativos, dedicada à prevenção contra a cegueira e subnutrição.

Rosa Parks
Rosa Parks (1913 – 2005). Ativista afro-americana que o congresso dos Estados Unidos designou como “a Iª senhora dos direitos civis”. É ainda hoje lembrado o dia em que recusou ceder o seu lugar num autocarro a um passageiro “branco” em Montgomery, Alabama. Este ato de desobediência contra a segregação racial, que culminou com a sua prisão e deu origem a um boicote aos autocarros da cidade, constituiu o símbolo do movimento moderno pelos direitos civis nos E.U.A. Mais tarde liderado poe Martim Luther King.
  Rosa Parks morreu em 2005 e foi a Iª mulher cujos restos mortais estiveram em Câmara ardente no Capitólio norte- americano.

               PELA INDEPENDÊNCIA
Helena  Rubinstein

Helena Rubinstein (1870-1965) polaca, criou um império a partir do nada. Emigrou para a Austrália, em 1902, sem dinheiro e pouco inglês, criou uma das primeiras empresas de cosméticos do mundo, com produtos que misturavam a gordura da lã das ovelhas, com flores de cheiro. Dez anos depois possuía uma cadeia de lojas internacional e converteu-se na Iª milionária a seu próprio mérito.

 
 Antónia Adelaide Ferreira (1811-1896). Mais conhecida por Ferreirinha, esta empresária, que ficou viúva aos 33 anos, dedicou-se à produção de Vinho do Porto e destacou-se pelas notáveis inovações que introduziu no processo de cultivo.
Ferreirinha
    Ferreirinha lutou contra a falta de apoios dos governos e enfrentou as doenças da vinha. Em 1849 a sua produção de vinícola era já de 700 pipas de vinho. Quando faleceu em1896 deixou uma fortuna considerável e perto de 30 quintas.

É sempre ingrato listar as mulheres, que ao longo da História e na sua época se destacaram por feitos importantes. No entanto, a memória encarregou-se de fazer perdurar alguns nomes que, pelo exemplo ou simbologia, representam os milhares que ao longo dos tempos se recusaram a ser diminuídas em função do seu Género.


 Fonte: Jornal o Público
           Wikipédia, a enciclopédia livre.
    
 Abril de 2014

   Carminda Neves