quarta-feira, 19 de março de 2014

LENDA DO BELO SULDÓRIO (soldado de Viriato)

Madrugada fria. Madrugada triste. Madrugada com cheiro de tormenta. Inverno na natureza e nas almas. Vento cortante como o fio de uma espada. Mas Viriato - o pastor dos Hermínios – não sentia esse frio cortante. Nem essa madrugada triste. Nem o cheiro da tormenta. Direito, como bela estátua erguida num campo coberto de cadáveres dos seus compatriotas, dir-se-ia o génio da vingança. À sua volta, os companheiros vivos que conseguira agrupar esperavam, atentos, as suas ordens. E forte, clara e precisa soou a voz do herói:
Fotografia de Carminda
Companheiros! Olhem em redor! Que estão a ver? Os corpos mutilados dos nossos irmãos, indignamente atraiçoados pela perfídia de um romano: Galba! (foi Cônsul romano na Ibéria na Iª metade do século II A. C.) Todos nós temos aqui um parente ou amigo. Todos estamos a contemplar as bárbaras ações desses altivos vencedores do mundo: crianças, mulheres e donzelas degoladas. Teremos nós coração para sofrer tanto? Não! Vinguemo-los, pois! Vinguemos tantas nações devastadas por esses verdugos! Tudo é por nós! Juremos, neste mesmo local, um ódio eterno ao inimigo. Pelo sangue derramado, por todas as virgens, eu juro, por mim, não despir estas armas enquanto não vingar as suas mortes!
monumento a Viriato
Parecia ecoar a voz do pastor no silêncio da montanha onde a morte imperava. E quantos o escutavam repetiram em coro o mesmo juramento. E foi então que, descendo a montanha por onde esvoaçavam aves de rapina, esses homens intrépidos, chefiados por Viriato, se espalharam pela Lusitânia para incitarem o povo a pegarem armas contra os Romanos.
Em baixo na planície, um sacerdote esperava-os. Vendo chegar o grupo, o sacerdote com ar resoluto e olhos brilhantes, dirigiu-se àquele que parecia comandá-los.
Meu filho! Em nome do deus Endovélico (deus mitológico da antiga Lusitânia séc.II a. C.) serás a partir deste momento o chefe supremo do exército dos pastores da serra. Assim, concedo-te o grande colar de oiro do comando!
Como resposta ouve um clamor de entusiasmo gritando por Viriato.
Reunindo os povos lusitanos sob o seu comando, Viriato encetou a sua grande luta de grande chefe, (os soldados “suldórios” de Viriato eram todos voluntários) com grandes proezas que assustaram Roma.
Entre esses voluntários, surgiu certo dia um jovem, de cabelos loiros e olhos azuis, figura frágil, quase feminina, que viera de muito longe com o desejo de ser também um suldórios. Ao vê-lo, Viriato chamou-o à sua tenda. O jovem acorreu imediatamente.
Aceitaram-te como voluntário e ouviste bem as nossas regras. Não desististe! Mas repara que és ainda muito novo para morrer e na verdade com esse ar delicado… não sei se confio muito em ti como guerreiro.
No rosto do adolescente surgiu uma expressão de receio e ansiedade.
Não te preocupes com o meu aspeto, Viriato! Juro-te que lutarei como os melhores. O chefe lusitano olhou para o rapaz estupefacto.
Que voz a tua! Condiz com o teu corpo, que mais parece de donzela… tenho receio de que se riam de ti.
Descansa que ninguém se rirá. E se alguém se atrever, a minha espada o calará.
A tarde morria ao longe, num vagar que definia força. Resistência entre a luz e as trevas, entre a vontade e o destino.
A luta continuou, as vitórias seguiram-se: Toledo, Évora, Viseu! Em todo o lado de modos e falas estranhas se mostrou sempre como valente guerreiro. Viriato não pôde esconder a sua admiração. E certa tarde em que ambos se encontraram no campo, o chefe lusitano achou por bem elogiá-lo
És na verdade um soldado extraordinário! Hoje, vi bem que me salvaste a vida. Doravante quero-te sempre a meu lado.
Sim! Na vida ou na morte estarei sempre a teu lado!
Viriato sorriu.
Voltou a fixar o soldado, que desviou o olhar para um ponto indeterminado.
Viriato continuou a falar. Agora o tom da sua voz era diferente. Havia nele algo de indefinível e na expressão do seu rosto surgiu um estranho sorriso.
Bem… Não pensemos agora na morte. A tarde está bonita… Apetece-me ir visitar Vanídia (noiva de Viriato) eleita do meu coração, a qual há muito tempo espera por mim!
Queres vir comigo?
Não, meu senhor. Para negócios de amor, certamente não precisareis de mim.
Tens razão. Em negócios de amor não precisarei de ti! E dando costas ao jovem, Viriato seguiu o seu caminho.
O chefe lusitano desceu a montanha sem nunca olhar para trás. Um único pensamento ocupava agora a sua mente, Vanídia, e pedir-lhe perdão por demorar tanto tempo.
Era quase noite. Mas na alma de Viriato havia luz, muita luz, como sol em pleno meio-dia!
Ao vê-lo, Vanídia correu para ele.
Viriato! Demoraste tanto! Cheguei a recear por ti!
Tens razão demorei muito, mas valeu a pena, aqui estou e com boas notícias!
Ela sorriu, feliz. Tenho tido conhecimento das tuas vitórias!
Não se trata agora de guerra. Trata-se do nosso casamento.
Será possível, Viriato tens-medito tantas vezes a mesma coisa!...
Querida! Se eu derrotar os exércitos de Caio Uminiano (Pretor romano acabado de chegar de Roma para combater Viriato. Morreu nessa batalha “Campo de Ourique”) e de Caio Nigídio,
(Pretor romano que sucedeu Uminiano. Atacou a Lusitânia pelo lado dos Transcuolanos (atual Serra Morena Espanha); mas Viriato foi em auxílio deste povo e derrotou o pretor no ano de 146 antes de Cristo), numa famosa batalha que deu origem lendária aos nomes de Esculca e cabeça de Esculca, aldeia e outeiro que ainda hoje existem. Igualmente vem dessa altura, na tradição popular, a origem do nome de Abraveses, diz-se que por aí ter acampado, antes da grande batalha, a bravesa lusitana…

Na verdade, Viriato venceu. E cumpriu a sua promessa, casou com Vanídia, filha do rico Astolpas. A cerimónia realizou-se em Vaaca (nome que antigamente se dava a Viseu. Porem para muitos estudiosos, tal hipótese é absurda, pois Vaaca ou vácua era também o nome do rio Vouga (Plínio) e a atual cidade de Viseu fica bem longe do rio Vouga).
Imagem de Mulher
Um ano de paz com Roma. Todavia, Viriato não esquecia os seus companheiros, embora o seu exército já estivesse um tanto disperso. Só os suldórios continuavam unidos em torno do seu chefe, como um corpo só, E entre eles se encontrava o jovem soldado, já famoso pelas suas façanhas em prol de Viriato e da causa da Lusitânia.
A vida é roda que gira, às vezes quase em vertigem. O tempo passou. E então, não sendo possível aos romanos vencerem pela força o chefe da rebeldia e altiva Lusitânia, valeram-se da astúcia - que é por vezes o caminho da traição.
É de todos os tempos a existência de mentes fracas, capazes de tudo por uma ambição fogaz. Também na Lusitânia houve traidores. Traidores que levaram Viriato à morte a troco de dinheiro. De noite, aproveitando a hora de descanso, entraram na tenda de Viriato, apunhalaram-no e levaram-lhe a cabeça para apresentarem ao Cônsul Romano!
Entretanto no acampamento alguém dera subitamente o alarme. Alguém que chorava convulsivamente abraçado ao corpo de Viriato: (aquele que fora o glorioso chefe dos lusitanos). E esse, alguém era o jovem soldado desconhecido.
A dor encheu o acampamento. A dor, a indignação, a tristeza, a amargura, um grito enorme surgiu, cortando a noite. Viriato era amado até à idolatria. Foram-lhe feitos solenes funerais. Foi erguida uma enorme pira, onde seria queimado o corpo de Viriato, para depois guardarem as suas cinzas. Envolto no seu manto de comando e levando o seu colar de oiro; o que fora valoroso chefe lusitano em breve começou a arder Os suldórios desafiavam-se em combate, como holocausto àquele que haviam jurado defender até à morte. E o exército reclamava novo chefe. De súbito, alguém apontou o vulto de um jovem pálido, rosto marcado pelas lágrimas, que parecia desafiar o próprio fogo onde o corpo de Viriato ardia. E diziam:
Morte de Viriato
Só ele! Só o companheiro dilecto de Viriato pode substituí-lo! Um clamor surgiu de todas as bocas, aprovando a escolha. Porem, o jovem soldado sem uma palavra, cabelos soltos ao vento, aproximou-se mais da pira onde o fogo ardia. Tirou a couraça e em seguida a túnica que lhe cobria o corpo, mostrando aos olhos espantados do exército em peso, e do povo um busto formosíssimo de mulher. Ouviu-se um «Oh» de pasmo. Mas aquela que fora durante tanto tempo o mais fiel dos soldados de Viriato. Gritou:
Sim sou mulher! Por amor a Viriato suportei tudo. Disfarçada de homem, tornei-me seu suldório para estar sempre a seu lado! Ele amava outra mulher. Não podia aspirar ao seu coração. Agora que o mataram a vida não tem mais sentido para mim. Morro com Viriato, já que vivi para ele!
E num gesto súbito, a mulher- soldado lançou o seu esbelto corpo às chamas ardentes…
Todos os presentes ficaram perplexos! A tarde, porém, morria sem queixumes, concedendo ao fogo o direito de a substituir na sua luz.
Viriato deixara de existir. E com ele ardia agora o corpo daquela que fora um dos seus melhores soldados, e jurara estar aseu lado para sempre, na vida ou na morte!

Fonte: LENDAS DE PORTUGAL. VOLUME II 1997; Gentil Marques. Círculo de leitores.
Fotografias:WEB

Março de 2014
Carminda Neves




sexta-feira, 14 de março de 2014

Estrela da tarde - Carlos do Carmo

PARA NÓS

Para ti que existes, para ti que não existes! Para ti que andas por parte incerta neste imenso planeta, para ti que choras, para ti que ris, para ti que cantas, para ti que falas, ou não fazes nenhuma destas coisas, que refiro atrás, para ti com quem me cruzo ou não todos os dias. Para ti que conheço, para ti que não conheço, para ti amas, ou não amas, para ti que tens, ou não, quem te ame, para ti que sofres física/ ou psicologicamente. Simplesmente para ti. Para ti? Não! Que feriste a minha mente. Para mim. Sim! Para mim. Que sou tudo isso, que digo para trás. Para nós! Este Poema, de José Carlos Ary dos Santos, que considero um dos mais belos de toda a Poesia. Extraordinariamente cantado, por Carlos do Carmo




ESTRELA DA TARDE

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceu
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

José Carlos Ary dos Santos

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

DESPORT0

                       
                                 PRESIDENTE DA FIFA E CRISTIANO RONALDO


Ronaldo. Trabalha não brinca
É sempre a mesma coisa. Um individuo que, diga-se a verdade, não tem aspecto normal: de faces rosadas, nariz arroxeado,(qual batata roxa) tropeçando ligeiramente nas suas "perninhas", diz meia dúzia de barbaridades acerca de um grande desportista e o mundo inteiro faz um grande alarido, eu, por acaso até acho bem, sou portuguesa tal como o atleta em causa, mas, há indivíduos tão ridículos e absurdos que, as suas palavras são para atirar aos “corvos” isto é: votar ao desprezo, ignorar, ou até rir, passar adiante e se houver oportunidade demitir, pois dão a conhecer a pobreza intelectual das instituições.
Presidente da FIFA. O rosto diz tudo

Sabemos, infelizmente, que há grandes lugares ocupados por pessoas “quenininhase isso não se passa só no desporto, mas, sim em todos os cargos de responsabilidade da sociedade mundial, não excluindo os grandes cargos políticos. Parece que uma geração rasca,com ausência total de inteligência ede valores tomou conta do mundo.
"Pobre" FIFA " rico" Joseph S. Blatter POBRE MUNDO

Carminda Neves
Outubro de 2013                                                               

    

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

sábado, 10 de agosto de 2013

O MEL, TRADIÇÃO E LENDA


A tradição e a lenda conferem ao mel qualidades únicas, desde afrodisíaco a elixir da juventude. De facto, o mel fornece pouco mais do que energia, sob a forma de hidratos de carbono simples.


recolha do mel
O mel é produzido pelas abelhas a partir do néctar das flores ou de exsudações naturais doces colhidas nos caules e folhas de certas árvores, e é principalmente constituído por uma mistura de água e dois açúcares simples, a frutose e a glucose. Quanto mais límpido for o mel, maior será a proporção de frutose. O mel acaba por endurecer se for conservado durante muito tempo, bastando no entanto aquecê-lo para que fique novamente mais líquido.

O mel fornece quantidades insignificantes de nutrientes, mas mesmo esse teor mínimo faz dele uma opção mais saudável que outro açúcar qualquer, refinado, que contém apenas calorias «vazias» 288 cal. Por 394 cal. Por 100g.1/4 do seu volume é água. No entanto é mais denso, e mais pesado que o açúcar, uma colher de sopa de mel pesa mais do que uma colher de sopa de açúcar, a sua substituição deve ser feita por peso, e não por volume, para que não forneça mais calorias. O seu sabor depende das regiões e plantas de onde as abelhas recolhem o néctar.

O mel pode conter toxinas naturalmente existentes nas plantas. Ex: rododendro pode provocar paralisia, o mel produzido pelo néctar de plantas como a tasneirinha pode conter alcaloides.

                                PROPRIEDADES “MEDICINAIS” DO MEL

  O mel conserva a sua reputação, como remédio, para tratar problemas respiratórios, Ex: constipações com a presença de expetoração, também, dizem que é antissético_ Os Gregos e os romanos diziam-no capaz de curar feridas_ diz-se também que é descongestionante. Tal como o açúcar tem um efeito ligeiramente sedativo, além disso, o líquido adoçado estimula a produção de saliva, que acalma a secura e irritação da garganta.

                                   O MEL ATRAVÉS DOS TEMPOS

O mel, a que os Gregos e Romanos chamavam «ambrósia» era considerado um alimento “digno dos deuses”. Na mitologia grega, o jovem Zeus, foi, salvo de seu Pai, Cronos, criado em segredo pelas ninfas Adrasteia, Amalteia e Melissa, estas alimentaram-no com mel e leite.

Muito antes de ter sido introduzida a apicultura, o homem da Idade da Pedra aprendera a apreciar o mel das abelhas selvagens, e na antiguidade, os Egípcios, Persas e Chineses conheciam-lhe o valor. Com mel fermentado e água, os Celtas e os Anglo-Saxões preparavam o hidromel, a sua bebida revigorante. O rei Salomão recomendava-o, e a Bíblia refere-se a terras onde corria o leite e o mel. Na Europa, até meados do século XVII, o mel, era o adoçante do povo, estando o açúcar reservado à nobreza e ao clero. De acordo com as despesas da ucharia (despensa) do rei D. Dinis de Portugal, o preço do açúcar era cerca de 50 X superior ao do mel.

                              CULTURA DE ABELHAS


colmeia de madeira
A apicultura “arte de domesticação e criação de abelhas para produção de mel, remonta a épocas longínquas e imprecisas da Antiguidade. Sabe-se no entanto que na Grécia, em especial na Jónia e em Creta, e também em Roma a cultura das abelhas era uma atividade a que eram dedicados os maiores cuidados.

     Conforme o clima, variam os sistemas de cultura, que pode ser fixista, com colmeias de palha, barro, ou troncos escavados de casca de sobreiro (cortiça), como em Portugal, ou mobilista, sistema que já os Egípcios conheciam e utilizavam, no qual se usa em regra a colmeia feita de madeira.

 

Fonte: ALIMENTOS BONS, ALIMENTOS PERIGOSOS; seleções do Reader`s Digeste.

Coimbra, agosto de 2013

Carminda Neves

 

 

terça-feira, 30 de julho de 2013

VELHICE

AMOR ENTRE INFANCIA E IDADE ADULTA
Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'

Carminda neves
julho de 2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

OS ASSÍRIOS E O SEU IMPÉRIO


No Tigre superior, acima das terras argilosas, numa região com pedra em abundancia apropriada para construções, haviam-se estabelecido os Assírios. Antes que os sumérios fossem submetidos pelos Semitas, já estes Assírios, povos semitas, haviam fundado uma civilização e construído, cidades, entre as quais sobressaiam Nínive e Assur. Aliaram-se ao Egito contra a Babilónia e foram recompensados pelo Egito. Desenvolveram em alto grau a arte militar, tornaram-se poderosos incursionistas e cobradores de tributos; e, por fim, adotando o cavalo e o carro de guerra, conquistaram a Babilónia, sob o comando do rei Tiglate PeliserI. (cerca de 1100 a.C.).

Durante quatro séculos, a expansão da Assíria em direção ao Egito foi obstada por outro grupo de povos, os Aramaicos, estabelecidos ao sul. A principal cidade dos Aramaicos era Damasco, e os seus descendentes são os Sírios de hoje. (Devemos notar que não há qualquer ligação entre as palavras assírio e sírio. A semelhança é puramente acidental). Contra estes Sírios investiram os reis assírios, lutando por expansão e poder na direção do sudoeste.

Em 745 a. C., Apareceu um novo Tiglate Peliser, Tiglate Peliser III, a quem a Bíblia faz referência (II Reis, XV, 29 e XVI, 7 e segs.)

 
Foi este rei que ordenou a deportação dos Israelitas, (as «dez tribos perdidas» cujo destino final tem dado trabalho a muitos estudiosos). Tiglate Peliser III, além disto, conquistou e reinou sobre a Babilónia, fundando, deste modo, o que os historiadores conhecem como o Segundo Império Assírio. O seu filho, Xalmaneser IV (II Reis, XVII, 3, na Bíblia), morreu durante o cerco da Samaria e foi sucedido por um usurpador, que, sem dúvida para lisonjear as suscetibilidades da Babilónia, tomou o antigo nome sumério-acádio, de Sargão – Sargão II. Parece que foi ele quem, pela primeira vez, armou as forças assírias com armas de ferro. Foi provavelmente Sargão II quem, de facto, levou a efeito a deportação das dez tribos que Tiglate Peliser III havia ordenado.
GUERREIRO ASSIRIO
BAIXO RELEVO DO PALÁCIO DE SARGÃO II





Essas transferências de população tornaram-se um dos aspetos característicos dos métodos políticos do Novo Império Assírio. Nações inteiras, que se mostravam de difícil submissão nas suas próprias terras, foram levadas em massa para regiões estranhas, onde a única esperança de sobrevivência estaria em obedecerem ao poder absoluto dos opressores.

Senaqueribe, filho de Sargão, levou as hostes assírias até às fronteiras do Egito. Aí o exército de Senaqueribe foi destruído pela peste, fatalidade referida na Bíblia, no segundo livro dos Reis, capítulo décimo nono:

«E naquela noite, o anjo do Senhor veio e feriu, no seu campo dos Assírios, cento e oitenta e cinco mil soldados: quando se levantaram, cedo pela manhã, e olharam, todos aqueles soldados eram corpos mortos. E foi assim que Senaqueribe partiu, regressando para Nínive», onde ficou… para ser assassinado mais tarde pelos seus filhos.

O neto de Senaqueribe, Assurbanipal (chamado pelos Gregos Sardanapalo)foi mais bem sucedido e, por algum tempo, conquistou e ocupou o Baixo Egito. 
FONTE:HITÓRIA UNIVERSAL; H.G. WELLS
JULHO DE 2013
CARMINDA NEVES